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sexta-feira, outubro 19, 2007

Capitão Nascimento - Presidente

O FIM da Marinha

Não é uma nação o país que não apóia suas Forças Armadas
- Por Cristovam Buarque

Na Comissão de Relações Exteriores assistimos ao depoimento do Almirante Júlio Soares (comandante da Marinha) sobre a situação da Marinha no Brasil. Amanhã, é fácil imaginar quais serão as possíveis manchetes dos jornais. Provavelmente sobre a subida do dólar, sobre algum vazamento da Polícia Federal, alguma notícia de corrupção, alguma notícia sobre violência urbana.

Mas eu creio que a mais importante manchete amanhã, se ela fosse refletir o que eu assisti hoje, a maior manchete, a de maior repercussão para o futuro do Brasil seria dizer: em 2025, a Marinha do Brasil não existirá mais.

Foi isso que o Almirante, Comandante da Marinha, com muita competência, com muita franqueza, colocou para nós: um quadro onde ele mostrava o que vai acontecer se não houver uma reversão da tendência, o que vai acontecer se a tendência continuar, em 2025.

E ele colocou em letras garrafais a palavra “fim” da Marinha no Brasil. Lamentavelmente, essa não vai ser a manchete, porque, lamentavelmente, enquanto isso acontece o que vemos? O Ministro da Defesa, recém-chegado, não passa hoje do gerente do tráfego aéreo brasileiro.

Não é um Ministro da Defesa, é um gerente, um diretor, um presidente da Infraero. Não assumiu! E ainda mais grave: preocupado, entre outras coisas, com a distância entre as cadeiras, esquecendo que não é só gente alta que tem problemas nos aviões. O gordo e o deficiente físico também têm. Não apenas os altos como ele.

Um Ministro da Defesa é para pensar a segurança nacional; onde estarão a Marinha, a Aeronáutica, as Forças Armadas em 2025, 2050, 2100. Não vemos essa preocupação. E não me digam que essa preocupação não é urgente.

Ela é urgente! E não me digam que isso não está na cabeça das pessoas, porque se não está na cabeça das pessoas, nós, como líderes, temos de colocar nas cabeças do povo brasileiro o que de fato é importante.

Claro que o problema do tráfego aéreo é importante. Mas basta um bom gerente cuidando disso na Infraero. Basta chamar o comandante da Aeronáutica e dizer “ponha ordem nisso, senão eu o demito”.

É nomear um gerente e dizer: “ponha ordem nisso, senão você não fica mais de um mês”. E deixe o Ministro cuidar dos problemas fundamentais da defesa nacional. Mas não é só o Ministro.

E enquanto a Marinha caminha para isso, o que vemos neste Senado? Preocupados nós com os problemas que ameaçam o Presidente do Senado; preocupados com pequenas coisas de um lado para outro, no máximo convidando aqui o comandante da Marinha para falar para um pequeno grupo de senadores na Comissão de Relações Exteriores.

Será que a gente não tem por obrigação, cada um de nós, de mostrar ao povo brasileiro o que vai acontecer no momento em que nossa Marinha se transformar em fantasmas?

Será que não é importante dizer que este País tem 8,5 milhões de km2 de terra, mas tem 4,5 milhões de km2 de mar? É mais da metade do território brasileiro o espaço marítimo que o Brasil tem.

Será que não vale a pena lembrar que 90% do comércio chega e sai do Brasil por vias marítimas? Que 80% do petróleo vem por vias marítimas?

Que a perda do controle das fronteiras marítimas e a falta de uma Marinhapodem, sim, ameaçar isso? É uma tragédia nacional.

Será que a gente não tem que alertar que grande parte dos recursos nacionais, não só petróleo, estão debaixo do mar? É lá que vamos encontrar a fonte de recursos. Lamentavelmente, não vemos isso no Ministro da Defesa, nem entre nós senadores.

Diante de nós, uma tragédia está sendo escrita, e a gente não está lendo. E 2025 é depois de amanhã. Mas, o mais grave, para se reverter isso: levam-se cinco anos só para fazer um navio; levam-se dez anos para se trazer uma nova estratégia.

Se começarmos hoje, talvez já estejamos chegando atrasados. E o pior é que a gente sabe que não vai começar hoje, nem no próximo ano. E não sabemos se vamos começar no ano seguinte. A tragédia se anuncia, e a gente, discutindo outras coisas.

Eu não disse coisas menores, porque as coisas todas são importantes, mas coisas cujas conseqüências não terão a tragédia do que é fundamental. E uma das coisas fundamentais, em um país que tem o espaço aéreo brasileiro, que é o quarto ou quinto maior do mundo, que tem 7.540Km de costa, talvez a terceira ou quarta maior do mundo inteiro.

Temos uma Amazônia cobiçada internacionalmente, cuja defesa, em parte, será feita pela Marinha, ou não será feita. Temos fronteiras com dez países e talvez poucos tenham tantas fronteiras terrestres como nós temos.

São 14 mil quilômetros de fronteiras a serem preservadas, protegidas, não só de governos estrangeiros, protegidas porque em algum momento a migração internacional pode ameaçar a estabilidade brasileira, protegidas porque o tráfico penetra por elas, protegidas porque a cobiça internacional por recursos entra por elas, e um dos recursos mais escassos futuros será água, e o Brasil é um portador desses recursos na maior quantidade.

Hoje, estamos abandonando a Marinha, a Aeronáutica, o Exército como se fôssemos uma nação pequena, menor e não um país com a necessidade de se comportar como potência.

Fala-se em potência com base no PIB. É claro que o Produto Interno Bruto é um indicador, mas mais importante do que o Produto Interno Bruto de hoje é a capacidade de produzir mais amanhã e isso a gente não está tendo.

Não está tendo porque, daqui para frente, o Produto Interno Bruto será criado pela ciência e pela tecnologia, será defendido por Forças Armadas preparadas, competentes e patrióticas. Isso a gente não está vendo do ponto de vista de nós, os líderes nacionais, darmos às Forças Armadas.

Eu imaginava que um Almirante pudesse vir ao Senado para falar do cenário do futuro, das estratégias de como a gente vai se comportar no Atlântico Sul, como vamos nos comportar nas vias fluviais que fazem fronteira com outros países. Quais são os cenários para proteger a Amazônia através do Rio Amazonas?

Quais são os cenários de estratégia para fazer da Marinha um importante centro de formação da consciência nacional e nacionalista brasileira.

Lamentavelmente, em vez disso, o Almirante é obrigado a usar de sua competência e firmeza para dizer: nós estamos pedindo socorro.

Vejam a situação em que vive a nossa Marinha. Dos 21 navios existentes, 11 estão imobilizados e 10 operam com restrições. Dos 5 submarinos, 2 imobilizados e 2 operando com restrições. Então, só tem 1. Dos 58 helicópteros, 27 estão imobilizados e 31 operando com restrições - todos.

Das aeronaves, 23 - 21 delas imobilizadas e 2 operando com restrições.

Não é a Marinha que nós precisamos para o tamanho do Brasil. Agora, isto explica porque. Se nós analisamos os dados da vida do arsenal, dos submarinos - que há necessidade - 12. Só temos 5. Sabem qual a idade deles? Em média, 10 anos. A idade dos navios-patrulha - 14 anos.

A idade do porta-aviões - 46 anos, antes da revolução eletrônica, antes da revolução de grande parte da arquitetura naval. Dos navios-escola, a idade média é de 27 anos; navios de apoio logístico móvel - a idade média é de 31 anos; navios varredores e caça-minas - a idade média é de 34 anos. Navios-patrulha fluviais a idade média é de 33 anos. Navios de transporte a idade média é de 36 anos.

Se olharmos as embarcações de desembarque, 28 anos é a idade média. Os navios de assistência hospitalar têm 17 anos de idade média; os helicópteros têm idade média de 15 anos e os aviões, 30 anos. Aqui não precisamos falar em Tamandaré. Seria bem capaz de Santos Dumont pilotar um avião desses.

Como se pode considerar que tem futuro um País do tamanho brasileiro se não realizarmos a discussão de como resolver esse problema. A Marinha tem competência se dermos recursos, que sendo aplicados a Marinha será fortalecida, criará emprego, dinamizará o setor de ciência e tecnologia.

Os Estados Unidos desenvolveram o setor de ciência e tecnologia em grande parte graças à defesa do próprio País. Foi a pesquisa, para levar adiante a defesa, que permitiu as descobertas que transformaram este País nas últimas décadas.

Confesso que não sabia que durante a Guerra do Paraguai, há 140 anos, a Marinha de Guerra Brasileira era a mais potente do mundo inteiro. Ou seja, a Marinha mais potente do mundo, em torno dos anos de 1860 a 1870, no tempo da Guerra do Paraguai, era a nossa.

E hoje? Um País que se transformou na oitava potência em PIB é uma das últimas em educação, é uma das últimas na proteção à saúde, é uma das últimas em moradia, é a última em concentração de renda e, sem dúvida alguma, é uma das últimas em termos de Forças Armadas que correspondam à dimensão do nosso País de hoje, e, sobretudo, à dimensão do que a gente espera para o futuro.

Lamentavelmente, fica difícil levar esse sonho de Forças Armadas casadas com um País crescendo potente quando a gente vê. Espero que tentemos casar os sonhos que temos para um país potente com as Forças Armadas que correspondam a essa potência.

Não vamos ter uma boa defesa se não tivermos a perspectiva de longo prazo e o sentimento de nação. Hoje, essas duas coisas estão faltando no Brasil. Não há sentimento de nação nem perspectiva de longo prazo e de futuro.

Um país que não é uma nação é um país que não apóia suas Forças Armadas.

E nós, Senadores, não estamos fazendo o dever de casa para que as próximas gerações tenham a tranqüilidade de contar com forças democráticas, de Forças Armadas, que, além de democráticas, sejam também eficientes e competentes para defender o Brasil.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Penúria da FAB


Comandante da Aeronáutica depôs em sigilo na Câmara
Contou que, sem verba, FAB só voa 37% de seus aviões
Disse que Venezuela baterá Brasil em aeronaves de caça

Deveria ser pública a audiência da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara. Porém, a pedido do brigadeiro Juniti Saito, fecharam-se as portas. Em reserva, o Comandante da Aeronáutica revelou aos deputados detalhes da situação de penúria vivenciada pela Força Aérea Brasileira. Disse que a FAB não tem dinheiro nem para a manutenção de suas aeronaves.

Segundo apurou o blog, Saito informou que, das 719 aeronaves da Força Aérea apenas 267 (37%) encontram-se em condições de voar. As outras 452 (63%), à espera de manutenção, não têm condições de uso –232 delas estão retidas no solo por falta de dinheiro para a aquisição de peças. A situação tende a piorar.

Segundo o brigadeiro, a frota brasileira é velha. O que torna a sua conservação cada vez mais onerosa. Oito em cada dez aviões da FAB têm mais de 15 anos de uso. A situação, de acordo com o relato de Saito, é incompatível com as atribuições da FAB. Entre elas, segundo as palavras do brigadeiro, anotadas por um dos deputados que o ouviam, está a de “manter a soberania e a defesa do espaço aéreo (13,5 milhões de quilômetros quadrados, incluindo a cobertura da área oceânica).”

Saito fez uma outra revelação que deixou preocupados alguns dos membros da comissão de Defesa da Câmara. Disse que o Brasil ostenta, hoje, a terceira posição na América Latina em relação ao poderio de seus aviões de caça. É superado pelo Peru, primeiro colocado, e pelo Chile, o segundo. E, em 2008, ficará atrás também da Venezuela.

O presidente venezuelano Hugo Chavez investe notáveis U$ 4 bilhões na área militar. No próximo ano, receberá 24 caças Sukhoi Su-30 que adquiriu da Rússia. “São aeronaves muito mais modernas do que as nossas”, lamuriou-se Saito. O brigadeiro disse aos deputados que a FAB acalenta a expectativa de adquirir novos caças. O projeto foi mandado à gaveta, porém, ainda no primeiro mandato de Lula.

fonte: http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/arch2007-10-14_2007-10-20.html#2007_10-17_21_57_45-10045644-0

quarta-feira, outubro 17, 2007

Votando no capitão

Olavo de Carvalho
Jornal do Brasil, 11 de outubro de 2007

Quem quer que tenha acompanhado as minhas aulas sobre a "teoria dos quatro discursos" – e, graças à internet, é um bocado de gente, a esta altura – sabe que uma das principais dificuldades na arte da palavra é a mudança de clave do discurso poético para o retórico. Ninguém faz isso direito, porque a primeira das duas modalidades está focalizada na exteriorização de percepções íntimas, a segunda no manejo deliberado das reações do ouvinte ou leitor. Expressão é uma coisa, persuasão é outra. Nos dois casos, trata-se de criar uma verossimilhança, mas a verossimilhança poética é pura coerência entre imagens, a retórica um acordo bem dosado entre o que você quer dizer e o que o público quer ouvir. Por isso o discurso poético se dirige a um auditório geral e indefinido, abrindo-se à multiplicidade imprevisível das interpretações que lhe dêem, ao passo que o retórico se dirige a uma platéia em particular, permanecendo ineficaz sobre as demais, exceto se ouvido como mera produção poética, desligada dos fins práticos a que visava originalmente.

Daí o fenômeno, tão repetidamente comprovado, de que o artista narrador, seja no romance, no teatro ou no cinema, não tenha controle quase nenhum sobre o sentido político-ideológico da história que narra, o qual sentido não depende da narrativa em si, mas dos fatos do mundo exterior – remotos e fora do alcance do artista -- a que a platéia associe os episódios narrados, fazendo destes o símbolo daqueles.

Gênios do porte de um Stendhal ou de um Balzac não venceram essa dificuldade – por que deveríamos exigi-lo dos nossos miúdos cineastas tupiniquins? Todos eles são mais comunistas que a peste, mas isso não impediu que em "Central do Brasil" o menino perdido, fugindo do inferno urbano, encontrasse no Brasil rural os antigos valores que são a essência mesma do conservadorismo: a família, a religião, a segurança, o amor ao próximo. Nem que "Cidade de Deus" resultasse numa apologia do que pode haver de mais reacionário e pequeno-burguês: subir na vida por meio do trabalho honesto.

Agora, José Padilha é crucificado pela esquerda porque em "Tropa de Elite", pela primeira vez, o cinema nacional mostra a violência carioca pelo ponto de vista da polícia, que é o dos cidadãos comuns, e não pelo dos bandidos, que é o da classe artística, dos "formadores de opinião" e do beautiful people esquerdista em geral. Padilha não fez isso porque queria, mas porque, tendo optado por uma narrativa realista, teve de ceder à coerência interna entre os vários elementos factuais em jogo, mostrando as coisas como elas aparecem aos olhos de qualquer pessoa que esteja boa da cabeça e não tenha se intoxicado nem de cocaína nem de Michel Foucault, como o fazem aqueles três grupos de criaturas maravilhosas. O resultado é que no seu filme os traficantes são assassinos sanguinários, os policiais corruptos são policiais corruptos, os policiais bons são homens honestos à beira de um ataque de nervos, os estudantes esquerdistas metidos a salvadores do país são clientes que alimentam o narcotráfico e mantêm o país na m.... Todo mundo sabe que a vida é assim, e é por isso que instintivamente todo mundo acha que descer a mão em bandidos, por ilegal que seja, é incomparavelmente menos grave do que o imenso concurso de crimes – guerrilha urbana, homicídios, seqüestros, assaltos, contrabando, corrupção política – que o narcotráfico traz consigo. Daí que, entre as razões do policial idôneo e as da bandidagem – que são as mesmas da esquerda iluminada --, o povo já tenha feito sua escolha: Capitão Nascimento para presidente.


(fonte: http://olavodecarvalho.org/semana/071011jb.html )

Welcome to Brazil, Dirty Harry!

Muitos cristãos não têm uma noção muito simples: "todo mundo" é pecador. A modernidade, a "ateização" da sociedade, leva a ignorar muitos dos pecados, tornando quem escolhe ter esses "santos", e cria uma compensação: há certos pecados proibidíssimos. Não me confundam, há sim uma escalaridade na gravidade dos pecados. Mas hoje, nesse mundo da "paz mundial", versão moderninha do paz e amor hippie, o pecado proibido é a violência, mesmo que não seja uma violência pecaminosa. Jesus Cristo, que jamais pecou, se hoje fizesse um chicote para expulsar os vendilhões do templo, seria atacado pela mídia.

Guerras são necessárias. Mataram teus amigos e vizinhos e vão te matar. Pecado é não agir de forma violenta para impedir: peca-se por omissão. E nas guerras, violência é o método. Deus nos deu a ira e a força violenta para usarmos em caso de necessidade. Acontece que o usuário dessas forças é um pecador, e pode usá-las de maneira errada mesmo com reta intenção. Aí entra a "ética moderna" e crucifica-o.

No filme "Tropa de Elite", os policiais do BOPE são violentos, têm até um pouco de sadismo, mas agem com a reta intenção de acabar com o tráfico, ou pelo menos reduzi-lo ou ainda contê-lo. São pecadores como eu, você, ou o maconheiro da esquina. Os traficantes, muitas vezes, agem por sadismo. São pecadores como todos nós, mas o pecado deles destrói vidas e impede os demais de prosseguir na virtude. Devem ser impedidos, e (reitero!) só podem ser impedidos por outros pecadores.

Nos anos 70, os EUA sofreram um surto de violência "gratuita" terrível. Não vou explorar as origens disso, vá ler o Olavão. A reação veio: Charles Bronson e o "Desejo de Matar" e Dirty Harry, o policial honesto, intransigente e violento, interpretado por Clint Eastwood. Capitão Nascimento — protagonista de "Tropa de Elite" — é o nosso Dirty Harry. Seja bem vindo!

Na primeira metade do filme, Nascimento marca muito ao dizer: "Eu sempre me pergunto: quantas crianças a gente tem que perder pro tráfico só para um playboy rolar um baseado?". E bate, estapeia, humilha, tortura, ao mesmo tempo que chora, se condói, comemora e agradece. É a personagem mais bem construída que vi nos últimos tempos: ele é intensamente humano, plenamente pecador, mas age pelo que considera justo e correto. Não é um santo nem um demônio, não é um animal nem um "espírito evoluído": humano. Choca-se com seus atos? Ora, olhemos para a nossa vida, para a nossa vileza! Será que o que fazemos não é tão ruim quanto?

"Tropa de Elite" é um filme excelente. Queira Deus seja o início uma reação como a que houve nos EUA nas décadas de 70 e 80. Eu li em um artigo de opinião no Estadão que ele abria uma nova era no cinema brasileiro: a era da pirataria (para quem não sabe, o filme será lançado dia 12 de outubro, mas já pululam cópias por aí) cinematográfica. Que o filme possa não ter apenas esse marco.

(fonte: http://lpereira.wordpress.com/2007/09/23/welcome-to-brazil-dirty-harry/ )

sábado, junho 23, 2007

Paintball Temático


"Isso é o máximo que você pode fazer?" O soldado grita insultos ao inimigo enquanto disparos rápidos, vindos de um bosque vizinho, atingem a torre de madeira que lhe foi ordenado proteger. Um segundo soldado determina que um grupo se posicione por trás do posto de vigilância, de dois pavimentos; agachado a um canto, um paramédico de no máximo 15 anos grita, com a voz trêmula, que está pronto para tratar as baixas.



O ataque ganha intensidade. Agora, os mutantes geneticamente modificados para se tornarem mais fortes estão disparando tiros de canhão. Repentinamente, um foguete atinge a guarnição. A morte surge na forma de um pequeno ovóide.

"Estamos mortos", grita Davi Velazquez aos seus colegas humanos, muitos dos quais nem perceberam o ataque com foguete. "Estamos todos mortos!" Isso significa que o grupo tem de esperar 10 minutos para começar de novo. A guerra é um inferno.

Ao longo de um final de semana recente, cenas como essa foram repetidas muitas vezes. Efígies de helicópteros eram derrubadas, tanques destruídos e esquadrões devastados. A tinta amarela de paintball escorria pelas ruas. Quase 400 jogadores compareceram ao Dark Angel, um jogo de paintball de 26 horas de duração baseado, em parte, na série de TV homônima, e que tem por cenário uma parte da Virgínia mais conhecida por batalhas da guerra civil americana do que pela guerra entre os transgênicos e o culto da procriação.

"A maior parte das pessoas ainda quer brincar de soldado", disse Ronn Stern, um dos proprietários da SplatBrothers Paintball, que organizou o evento em seu parque de 37 hectares em Prince George, ao sudeste de Richmond. Mas jogos como este diferem um pouco do paintball comum. Eles têm temas - batalhas militares, invasões alienígenas, guerras entre cartéis de drogas, disputas entre espécies em uma versão distópica do futuro -, e os jogadores não vencem simplesmente acertando tiros nos adversários.

Eles precisam realizar missões complexas, como no caso de Dark Angel, no qual os seres humanos precisam conter o avanço dos super-soldados mutantes. Em alguns jogos, que se estendem pela madrugada, os personagens recebem "cartões de personagem" que lhes explicam a narrativa, enquanto outros selecionam papéis específicos definidos por um livro de regras extra-oficial, um volume online adotado por cerca de 80 parques de paintball nos Estados Unidos.

Velazquez, químico especializado em polímeros que é conhecido entre os adeptos do passatempo por seu nome de guerra, Coyote, começou disputando torneios de paintball convencional, e conta que quase abandonou o hobby -mas um dia compareceu a um jogo inspirado em "Senhor dos Anéis". Ele diz ter comparecido ao jogo porque é fã de Tolkien, e imaginava que lá poderia vender seu equipamento de paintball. Mas saiu do evento convertido em fã dos jogos temáticos.

"Encontrei uma perspectiva completamente diferente sobre o paintball", diz, "na qual todo tipo de pessoa pode ter impacto em campo, e por isso todos os jogadores - os magricelos, os rechonchudos, os mais velhos - são aceitos sem dificuldade". Patrick McKinnon, que com a mulher, Diane Howe, produz a batalha de Dark Angel, explica de outra forma: "São meninos grandes brincando com seus brinquedos, algo de muito americano".

O conceito de paintball temático existe há quase tanto tempo quanto o paintball em si, criado em 1981, em New Hampshire, quando dois amigos descobriram uma nova forma de empregar um aparelho cujo uso primário até então era marcar gado e árvores a distância. Mais recentemente, os jogos temáticos ganharam força, à medida que os fabricantes de equipamento de paintball começaram a atender à demanda por realismo e por produtos de qualidade.

No final dos anos 90, esses jogos atraíam usualmente por volta de 50 pessoas. Mas a popularidade dessa modalidade explodiu, nos últimos anos. O primeiro jogo temático Invasion of Normandy produzido pela Skirmish USA atraiu 1,7 mil jogadores ao campo da empresa, em Jim Thorpe, Pensilvânia, em 2002. Para o Invasion of Normandy deste ano, em julho, a organização antecipa que haja cinco mil inscritos.

Do lado de fora da área de jogo, os participantes de Dark Angel removiam os óculos de proteção; a atmosfera se tornava mais relaxada. A maior parte das equipes estava acampada no local. Os jogadores se reuniam nas barracas de comida e bebida, assistindo a vídeos de edições passadas, removendo a tinta de seus corpos e esperando para voltar à disputa perto de uma área que um observador definiu como "a zona verde".

Vestindo uniforme de camuflagem completo, Bruno Vadala, técnico de computador do norte de Nova Jersey, disse ter descoberto o paintball temático depois de levar seu filho a uma festa de aniversário em um campo local de paintball. Mais tarde, quando deu uma festa para o menino no mesmo local, Vadala conta que alguém mencionou um jogo temático.

Passados quatro anos, Vadala e o filho, que hoje tem 14 anos, se tornaram participantes regulares desse tipo de torneio, e Vadala foi o segundo em comando de uma equipe "vietnamita" que derrotou os "norte-americanos" no NJ Nam, um evento anual no aeroporto de Williamstown, Nova Jersey, visto por muitos como um dos mais realistas dos jogos temáticos de paintball.

Um final de semana de guerra

Jogos temáticos de paintball costumam começar na tarde de sábado e duram até a madrugada, ainda que a maioria dos jogadores sem equipamento de visão noturna ou lanternas muito possantes opte por abandonar a partida quando escurece. A disputa recomeça domingo bem cedo, e em geral se encerra em uma grande batalha no começo da tarde. As regras usadas pela maioria dos organizadores estão disponíveis em www.scenariopaintball.com.

O jogo Invasion of Normandy, com cerca de cinco mil participantes, começa em 14 de julho na Skirmish USA, em Jim Thorpe, Pensilvânia (800-754-7647; www.skirmish.com). Em 11 e 12 de agosto, Deadwood será revivida na Strategy Plus Paintball - Bear Swamp Road, East Hampton, Connecticut (www.strategyplus.com). Os cidadãos de Deadwood se dividirão entre os adeptos de Al Swearengen e os de seu rival Cy Tolliver.

Já o DEA vs. the Cartel II é uma atração popular de final de verão, e acontece em 1 e 2 de setembro no centro de treinamento urbano da Guarda Nacional do Alabama, em Anniston, Alabama (205-672-2860).

fonte: http://noticias.terra.com.br/mundo/jornais/interna/0,,OI1708053-EI8255,00.html

quinta-feira, junho 14, 2007

Exército quer mudança na lei para poder atuar



O comandante do Exército, general Enzo Martins Peri, diz que "é necessário aperfeiçoar o ordenamento jurídico vigente" para que os militares possam atuar no Rio de Janeiro. Em outras palavras: se houver base legal, o Exército está pronto a subir os morros e atuar à sua maneira para "pacificá-los", como foi feito nas regiões mais violentas do Haiti.

"Estamos sempre prontos a cumprir as missões legalmente atribuídas a nós", afirmou Peri.

Constitucionalmente, os militares só podem ir às ruas para a garantia da lei e da ordem, por determinação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ou quando o governador do Estado se declara incapaz de combater o crime. Ou seja, trata-se de uma decisão política.

O instrumento jurídico se aplica à situação do morro do Alemão hoje: as crianças estão há um mês sem aulas, não há recolhimento de lixo e as ruas vivem às escuras devido aos confrontos entre a Polícia Militar e os criminosos. O tráfico vigora e o Estado não entra.

Na manhã desta quinta-feira, uma reunião no Rio do chefe do Estado-Maior da Defesa, tenente-brigadeiro-do-ar Cleonilson Nicácio Silva com o governador, Sérgio Cabral, e o secretário de segurança do Estado, José Mariano Beltrame determina o futuro da atuação das Forças Armadas. Militares devem ser empregados no patrulhamento de vias expressas e na segurança de instalações utilizadas nos jogos, mas sem poder de polícia, por causa da lei atual. Isso constrange os militares, que não podem revistar, prender, fazer buscas ou atuar à sua maneira. Somente “passear” pela capital fluminense dentro de um blindado.

Uma exceção será os Forças Especiais: homens treinados para atuar em qualquer missão, em qualquer lugar, a qualquer hora e de qualquer maneira. Eles são os homens de frente, de inteligência e de precisão e estarão de prontidão durante o Pan-Americano. Mas só em caso de necessidade. Caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decida que o Exército deva subir o morro, serão eles que, juntamente com oficiais e soldados que já atuaram na missão da ONU no Haiti, irão integrar a operação.

Durante os jogos, Marinha, Exército e Aeronáutica podem ceder seus hospitais para atendimento. As Forças Armadas irão emprestar também alojamentos, equipamentos e armamento para os 6 mil policiais que integram a Força Nacional de Segurança e que devem chegar ao Rio até o início dos jogos, dia 13 de julho.

A Força Nacional, criada em 2004, é integrada por policiais de diversos Estados, com diferentes treinamentos, equipamentos e salários, não conhecendo o Rio e que muitas vezes não tiveram treinamento unificado.O fato de um órgão novo e sem experiência ser responsável pela segurança de um evento de repercussão internacional preocupa o policial e deputado federal Willian Woo (PSDB).

"Eu estou preocupado e fiquei assustado com a demissão de três coronéis que estavam preparando havia três anos o programa de segurança do Pan e 60 dias antes dos jogos foram demitidos e não puderam passar seus ensinamentos. Precisamos estar preparados para uma eventualidade, como um ataque terrorista ou uma intervenção na Baía de Guanabara. Eu tenho certeza de que se algo ocorrer fora do cotidiano, teremos problemas em resolver", diz Woo.

O deputado esteve no Haiti em maio e defende a ação do Exército no Rio, desde que com amparo legal explícito. “Uma ação do Exército no Rio com certeza teria sucesso. Só precisa ter regras de conduta igual tem na intervenção da ONU. O que hoje pela nossa lei não é possível. Precisamos de regras de conduta claras de o que o militar deve fazer e como agir", diz.

Haiti como modelo

O comandante do Exército diz que a experiência no Haiti mostra ser necessária a presença "ostensiva e permanente das forças de segurança", mas ela é insuficiente sozinha. Segundo ele, são necessárias também "ações em benefício da população, como as desenvolvidas pelos militares lá; tudo é feito de acordo com as necessidades específicas da comunidade”.

Ele lembra, contudo, que há diferenças entre as duas situações:

“A realidade haitiana e o arcabouço legal que suporta as ações da ONU lá são diferentes das encontradas no Brasil. A solução para o Rio não seria uma ação apenas militar – como também não é no Haiti – mas a integração de esforços de toda uma gama de instituições: do Estado, em suas várias esferas, municipal, estadual e federal; de organizações privadas e mesmo parcerias com empresas, em benefício de programas continuados dirigidos à população trabalhadora e honesta que vive nestas áreas e, principalmente, visando afastar da juventude o atrativo da criminalidade”, argumenta o general.

Apesar de “topograficamente haver semelhança entre as favelas de lá e aqui”, as semelhanças param nas táticas militares que seriam empregadas. “No Haiti, fora do perímetro das favelas ainda há a quase total ausência do Estado, o que não ocorre nas grandes cidades brasileiras. As favelas haitianas não abrigam pontos significativos do tráfico de drogas. Os contingentes operam no contexto de uma missão da ONU, com regras de engajamento perfeitamente definidas”, aponta o comandante do Exército, lembrando que lá os militares não moram ou têm famílias em regiões próximas ao local de combate, diferentemente do Brasil.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Infante não morre, vai para o inferno atazanar o capeta

Quando morrer quero ir de Fal ou de Bereta
Chegar no inferno e dar um tiro no Capeta
E o Capeta vai gritar desesperado
Meu Deus do céu tira daqui este Soldado
Quando morrer quero meu ultimo desejo
Ser enterrado numa pista de rastejo
E o coveiro tem que ser um bom guerreiro
Abrir minha cova com granadas e morteiros
e a menina que por mim não choraria
Assobiava a canção da Infantaria

quinta-feira, novembro 16, 2006

Combat T-98 - Mais forte que um Hummer

Fabricado pelos russos, o Combat T-98 segue a receita do utilitário americano e acrescenta uma poderosa blindagem



O que acontece quando os russos resolvem construir seu próprio Hummer, o jipe americano que ganhou fama desde a primeira guerra no Iraque, em 1990? E quando resolvem lhe acrescentar blindagem antiterrorismo? Se você acredita que ver um Hummer crescendo no retrovisor é uma das imagens mais assustadoras que se pode ter no trânsito, prepare-se para conhecer o Combat T-98.

A empresa Combat Armouring Group, fundada em 1985 com sede em São Petersburgo, Rússia, tem como histórico a produção de veículos blindados para o exército, bancos e companhias de segurança. Até 1990 só produziu protótipos baseados em antiquados carros da Lada e da Luaz. Nesse ano entrou em produção o Pilot, um veículo de dois lugares com motor Audi e tração integral. Em 1993 a empresa passou a se especializar na fabricação e adaptação de veículos blindados e, cinco anos depois, começou a produzir por encomenda o Kanonir 4x4, um pequeno utilitário. Além disso, passou a blindar veículos da russa UAZ.


Foi também em 1998 que o projeto do Combat T-98 foi idealizado. Segundo a empresa, o objetivo era produzir "o melhor veículo blindado não-militar do mundo". Inicialmente usava veículos comuns e adicionava placas de blindagem e vidros à prova de balas. Com resultados aquém do esperado, a empresa percebeu que os veículos modificados não protegiam completamente seus passageiros. Assim, os projetistas construíram o primeiro protótipo em 2000. Três anos mais tarde a Combat passou a atender clientes que consideravam o Hummer vulnerável demais para suas necessidades.



O T-98 é construído artesanalmente e está disponível em diversas configurações. Pode-se escolher entre picape cabine-dupla e utilitário do tipo perua, com opção de entreeixos alongado em ambos. Além disso, é possível optar entre dois motores General Motors: o Vortec V8 a gasolina de 8,1 litros, com potência de 400 cv e torque de 63 m.kgf, e o Duramax turbodiesel de 6,6 litros, 300 cv e 72 m.kgf. Todas as versões têm câmbio automático de cinco marchas e suspensões da GM.

Mas o que realmente interessa no Combat T-98 é sua blindagem. Disponível do nível B2 ao B7, atende às rigorosas necessidades de clientes especiais, como chefes de estados, sultões do petróleo e presidentes de grandes corporações. Na configuração básica, com blindagem B2 resistente a disparos de pistola Magnum 357, é equipado com bolsas infláveis, freios antitravamento (ABS), ar-condicionado, controlador de velocidade, computador de bordo, bancos aquecidos com ajustes elétricos, revestimento em couro e apliques de madeira nobre. Como opcionais, faróis de xenônio (baixos e altos) e sistema de entretenimento. É possível optar pelo acabamento Presidential, que como a denominação indica é voltado a chefes de estado.



O segundo nível suporta balas de calibre 7.62 e o terceiro pode enfrentar terroristas com rifles AK-47. Por fim, o nível B7 antitanque inclui placas de cerâmica entre as camadas de aço de blindagem. Para os níveis mais altos de proteção, o piso é projetado para suportar explosões de minas terrestres e granadas.



O T-98 tem pneus que podem rodar vazios, pára-choques dimensionados para agüentar grandes impactos (para saída forçada de alguma emboscada) e janelas com até 50 mm de espessura! Pode pesar mais de cinco toneladas, mede mais de cinco metros de comprimento e dois de largura e atinge 180 km/h. As rodas podem ser de 17 até 20 pol, com pneus entre 315/70-17 e 325/60-20.



Segundo a empresa, não seria possível adaptar um Hummer para suportar tanta blindagem. Além disso, o Combat é o veículo blindado 4x4 mais rápido do mundo.



Ultra AP - Evolução do Hummer:
http://webscraps.blogspot.com/2005/10/ultra-ap-armored-patrol.html

segunda-feira, novembro 06, 2006

O que são os militares

Você quase não os vê porque são poucos, para um Brasil tão grande, mas eles existem. Aliás, insistem em fazê-lo. Aceitam morar na Amazônia e em outros lugares inóspitos e insalubres

- insistem em continuar cumprindo com suas atribuições constitucionais, apesar de anos a fio de orçamentos gradativamente depauperados;

- fazem questão de constituir famílias (são ousados) e de tentar sustentá-las com os minguados salários;

- substituem as forças de segurança em greve, cujos integrantes recebem vencimentos superiores aos seus (e ainda se julgam com direito de majorá-los), só porque acreditam ser essa sua missão diante da Nação que lhes paga mal e alimenta parcialmente;

- constantemente têm atirados ao rosto questionamentos a respeito de sua utilidade e procuram justificá-la perante os ignorantes, revanchistas e derrotados no campo da luta ideológica e que se vingam lançando sobre eles acusações difusas nas quais espelham, em realidade, o medo que a sociedade os chame de volta, como sempre o fizeram no passado histórico

Aliás, a Nação tem o estranho hábito de recorrer a eles nos momentos de perigo

Porque agem assim? Porque acreditam em valores e têm princípios

Além disso, a hierarquia lhes impõe a disciplina e o silêncio

Perigo haverá quando deixarem de acreditar nos valores, perderem os princípios (como muitos segmentos da sociedade já o fizeram), a hierarquia for quebrada, a disciplina não mais justificar o silêncio e não puderem cumprir a missão que a Nação lhes atribui, por terem exaurido suas forças

Agora, a elite conjuntural governante parece ter um grande problema
Como conceder a esses estóicos anônimos, que não têm o direito de greve ou de reivindicação por meio de outros movimentos paredistas a correção do desgaste nos vencimentos?

Afinal, por desejo das elites libertárias ou libertinas que se apossaram do poder, eles já deveriam ter desaparecido , mas insistem em ter os maiores índices de aprovação popular nas pesquisas comparativas em relação a outros segmentos da chamada sociedade organizada.

Alegam, os usuários do poder, falta de recursos, comprometimento do superávit primário, dificuldades com a previdência etc, toda uma ladainha que já beira as raias do ridículo, que a sociedade já reconhece como esfarrapadas, enquanto promovem desmandos e beneficiam bandidos e terroristas da própria quadrilha deles com polpudas indenizações vitalícias.

Na realidade, é preciso tirar-lhes os brios e os méritos, humilhá-los ainda mais, quebrar-lhes o ânimo.

Quem sabe, assim, desistam de existir?

Mas parece que eles têm uma infinidade de vidas. São piores que a fábula das sete vidas dos gatos.

Quando morrem, apenas se reagrupam na eternidade.

Eles acreditam na Justiça e no ciclo da História. Talvez tenham aprendido a lição e não deixem que ela se repita. Um de seus antigos chefes já advertiu para a cólera das legiões.

Eles são os militares!

Apenas querem cumprir sua missão. Os políticos ainda não perceberam que o risco é infinitamente menor quando eles estão equipados com as melhores armas e idéias que a Nação puder lhes dar, conforme, sabiamente, profetizou o General Douglas MacArthur.

São preparados para sobreviver na adversidade. Alimentam-se da fé em suas crenças. Não pedem muito, apenas o mínimo: respeito, sem humilhações.

O perigo realmente existirá , quando os militares acreditarem que estão por si sós.

Percival A Costa - Capitão-de-Mar-e-Guerra Reformado

sexta-feira, agosto 25, 2006

25 de Agosto. A todos nós, Soldados

Antes de felicitar os soldados, cabe uma reflexão do que seja soldado....

Soldado não é só aquele que calça coturno, tem estrelas ou graduações, medalhas ou porta armas, mas sim, aquele que tem amor à sua pátria, ao chão que nos dá o que comer e às nossas famílias, a todos que falam a mesma lingua – sem com que e qual sotaque – e, têm as mesmas tradições e história, desde que aqui viva ou tenha suas ligações.

Nos pés descalços do caboclo que cavoca o chão para plantar a mandioca que fará a farinha para qualquer mesa do mundo, nos calos da enxda puxada diáriamente ao plantar uma salada para qualquer mesa de um cidadão, aos calos nas mãos do peão que cerca o gado destinado à finas mesas, no suor do carteiro, no sorriso de um vendedor, no afago de uma professora, no apito do sorveiteiro, no sal do pipoqueiro da praça, no varredor de nossas ruas, no cobrador de ônibus, no trabalhador comum e nas donas-de-casa, mães e pais de família...

Esses são os soldados de nossa sociedade e como tais, carregam nossas mais profundas tradições e sentimentos de fraternidade, amizade, camaradagem, como só aquelas afetas às pessoas de bom coração e sentimentos que vê no sorriso de uma criança feliz, alegre, saltitante ou nos olhos rasos de alegria de um senhor de alvos cabelos a ver serenidade de nossa liberdade e zelar e rezar para que isso se sustente e para sempre nos conserve. Essa é a mão amiga que sustenta nossas tradições, nossas vidas, nossas famílias, nossa sociedade e nosso país, cercado pelas extensas fronteiras secas ou as lambidas pelas ondas do oceano...

No braço forte, sustenta-se a nossa sociedade em homens dedicados, sóbrios, atentos e mesmo que precáriamente dotados de equipamentos ou pagas mensais, se sustentam da devoção, do heroísmo, da dedicação em cumprir o nobre papel que lhes competem, calejando os ombros com o pesado fuzil a montar guarda em nossas mais distantes guaritas a ouvir ao longe o clarim da liberdade soprar aos ventos de todos os nossos rincões e rezar para que Deus os tenha e mantenha suas famílias e povo na segurança.

Soldado é ser isso... Mesmo de coturno ou pés no chão, servir à pátria com seu suor, seja como for, fardado ou não, portando armas ou enxadas. Soldado é aquele que vê em sua terra, o destino de seus filhos, netos, vizinhos, amigos e parentes e se solidifica na lisura, na amizade, na simpatia, na honestidade e na esperança de dias melhores e se verga em cumprir o seu papel em benefício de todos, uns produzindo e outros zelando para que esses possam produzir em paz.

Somos todos soldados, desde as primeiras carteiras de escolas de nossas vidas até os doutorados que zelam em trazer ao seu povo dias felizes e mais saudáveis.

No dia 25 de agosto, o clarim parece saudar apenas o soldado fardado, mas não, assim não deve ser, pois somos todos soldados, mesmo não estando prestando continência ou as recebendo, pois de uma forma ou outra, todos lá estamos, dentro de um quartel a prestar continência à nossa pátria, nas mãos de um filho, de um pai, de um sobrinho, de um irmão, de um primo, de um colega, de um amigo ou, de tantas outras mãos, até femininas, que hoje servem nossa pátria por esses rincões afora, em benefício de todos. Que nesse soar de clarim do dia 25 de agosto, toque o coração de todos, desde os Caxias de ontem aos Caxias de hoje, pois todos todos somos soldados, de sangue verde-oliva, azulão ou branco, até os das polícias de nossos estados, de nossas cidades e os de ternos nas delegacias, nos plantões, nas guaritas de quaisquer lugares desse nosso Brasil, pois assim deve ser, para que nossos brasis se solidifique e cada vez mais, sejamos apenas um Brasil, forte, de mão amiga e braço sustentável, mas sem os demais, ditos, “brasileiros”, que insistem em não marcharem conosco e estarem sempre de passos errados, a marchar em direções contrárias e a sorver os suores de nossos soldados em benefício sabe-se lá de quem, pois se prestam à desunião e à desestruturação desse exército enorme de quase cento e noventa milhões de brasileiros que tem na honra, na dignidade, na amizade, fraternidade, na benção divina, os seus reais propósitos de um dia, ouvirem os clarins tocarem por todos os cantos e todos os dias, como se fossem o dia de todos os soldados, livres, unidos, coesos e destinados a uma só marcha: a de fazer nosso país crescer, ser o mesmo a todos e dar as mesmas oportunidades a todos, seja aos meus, como aos seus, aos nossos filhos e demais descendentes.

Feliz dia do soldado a todos nós, bons soldados, pois merecemos esse país que defendemos a cada dia com nossos suores e bons pensamentos ou mesmo, vergando farda, estrelas, graduações, armas ou enxadas e canetas...

Felizes somos se assim se perpetuar, uma nação livre, soberana, simpática a todos os povos e crenças e de boa vivência e vizinhança a quem quer que seja, mesmo aos ruins, e assim, possamos, mesmo que aos poucos, sermos moldados para a nação do futuro, eliminando os que insistem em serem maus e sermos, um dia, só soldados do mesmo pelotão da seriedade e da simpatia e devoção para um Brasil de todos e para todos...

Aos meus filhos de farda, afilhados, sobrinhos, amigos, colegas, companheiros e mesmo todos os irmãos de quaisquer forças ou orgãos de segurança e a todos os demais brasileiros de boa índole e fé, feliz dia do Soldado e, por mais terra que eu percorra, não permita Deus que eu morra sem que um dia, possa ainda ter a certeza de que nesse chão, em se pisando, serão todos felizes e livres!
Parabéns, ó brasileiros de sangue verdadiramente brasileiro, seja de que raça, credo ou nacionalidade for. Você é um soldado brasileiro, desde que pise dentro de nossas fronteiras!

Brasil, acima de tudo!

Carlos ALBERTO Silva
2º Tenenete R/2
Engenharia – Exército Brasileiro/CPOR-SP/1977
E-mail: r2alberto@ig.com.br

segunda-feira, agosto 07, 2006

Prisão-acampamento

Joe Arpaio é o xerife do Condado de Maricopa no Arizona já há bastante tempo e continua sendo re-eleito a cada nova eleição.


Motivo:
  • Ele criou a "cadeia-acampamento", que são várias tendas de lona, cercadas por arame farpado e vigiado por guardas como numa prisão normal.
  • Baixou os custos da refeição para 40 centavos de dólar que os detentos, inclusive, tem de pagar.
  • Proibiu fumar, não permite a circulação de revistas pornográficas dentro da prisão e nem permite que os detentos pratiquem halterofilismo.
  • Começou a montar equipes de detentos que, acorrentados uns aos outros, (chain gangs), são levados à cidade para prestarem serviços para a comunidade e trabalhar nos projetos do condado.
  • Para não ser processado por discriminação racial, começou a montar equipes de detentas também, nos mesmos moldes das equipes de detentos.
  • Cortou a TV a cabo dos detentos, mas quando soube que TV a cabo nas prisões era uma determinação judicial, religou, mas só entra o canal do Tempo e da Disney.
Quando perguntado por que o canal do tempo, respondeu que era para os detentos saberem que temperatura vão enfrentar durante o dia quando estiverem prestando serviço na comunidade, trabalhando nas estradas, construções, etc.

Em 1994, cortou o café, alegando que além do baixo valor nutritivo, estava protegendo os próprios detentos e os guardas que já haviam sido atacados com café quente por outros detentos, sem falar na economia aos cofres públicos de quase US$ 100,000.00/ano.
Quando os detentos reclamaram, ele respondeu:
- Isto aqui não é hotel 5 estrelas e se vocês não gostam, comportem-se como homens e não voltem mais.

Distribuiu uma série de vídeos religiosos aos prisioneiros e não permite quaisquer outros tipos de vídeo na prisão. Perguntado se não teria alguns vídeos com o programa do partido democrata para distribuir aos detentos, respondeu que nem se tivesse, pois provavelmente essa era a causa da maioria dos presos ali estarem.

Com a temperatura batendo recordes a cada semana, uma agencia de noticias publicou:
- Com a temperatura atingindo 116 F, (47 C), em Phoenix no Arizona, mais de 2000 detentos na prisão acampamento de Maricopa tiveram permissão de tirar o uniforme da prisão e ficar só de shorts, (cor de rosa), que os detentos recebem do governo.

Na última quarta feira, centenas de detentos estavam recolhidos às barracas, aonde a temperatura chegou a atingir a marca de 138°F, (60°C). Muitos com toalhas cor de rosa enroladas no pescoço estavam completamente encharcados de suor. Parece que a gente está dentro de um forno, disse James Zanzot que cumpriu pena nessas tendas por um ano.

Joe Arpaio, o xerife durão que inventou a prisão-acampamento, faz com que os detentos usem uniformes cor-de-rosa e não faz questão alguma de parecer simpático.
Diz ele aos detentos:
- Nossos soldados estão no Iraque onde a temperatura atinge 120°F (50°C), vivem em tendas iguais a vocês, e ainda tem de usar fardamento, botinas, carregar todo o equipamento de soldado e, além de tudo, não cometeram crime algum como vocês, portanto calem a boca e parem de reclamar".

Se houvessem mais prisões como essa, talvez o número de criminosos e reincidentes diminuísse consideravelmente.

Criminosos têm de ser punidos pelos crimes que cometeram e não serem tratados a pão-de-ló, tendo do bom e melhor, até serem soltos pra voltar a cometer os mesmos crimes e voltar para a vida na prisão, cheia de regalias e reivindicações.

Muitos cidadãos honestos, cumpridores da lei, e pagadores de impostos não tem, por vezes, as mesmas regalias que esses bandidos tem na prisão.

Texto da CNN sobre o assunto: http://www.cnn.com/US/9907/27/tough.sheriff/

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Comandante do Exército reclama do governo no Senado

O comandante do Exército, general Francisco Albuquerque, reclamou hoje que militares não estão conseguindo fazer as três refeições por dia. Em depoimento na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, ele disse que 52% dos canhões da força são da Segunda Guerra, os fuzis têm 40 anos, os blindados Urutus foram comprados em 1971 e as fardas das tropas estão incompletas. "O homem tem direito de tomar café, almoçar e jantar, mas isso não está acontecendo", disse Albuquerque, ao comentar as poucas verbas para alimentação dos militares.

Albuquerque fez essa declaração para sensibilizar os poucos senadores presentes a ajudar no aumento de recursos no Orçamento da União para as Forças Armadas. A garantia de três refeições diárias a qualquer cidadão é um dos bordões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na posse, em janeiro de 2003, Lula disse que estaria satisfeito se, ao final do mandato, todos os brasileiros pudessem fazer três refeições por dia.

Os comandantes da Marinha, Roberto Carvalho, e da Aeronáutica, Luiz Carlos da Silva Bueno, também reclamaram das dificuldades orçamentárias. Bueno ponderou que o problema do contingenciamento "não é novidade do ministro Palocci, isso vem de longa data". "É o buraco negro, o próprio ministro está acostumado a falar disso", afirmou Bueno.

Já Carvalho considerou "surreal" a falta de munições e relatou que os projetos do reator nuclear e do enriquecimento de urânio da Marinha estão "estagnados" e em "estado vegetativo".

Todos os três comandantes alertaram que, se não houver aumento de recursos, as Forças Armadas correm risco de não conseguirem se recuperar no futuro. O general Albuquerque relatou que os militares do Exército só contam com 43 dos 227 itens de uma farda. "O uniforme para ir à rua não é mais distribuído", contou. Segundo o comandante, a idade média dos veículos do Exército é de 20 anos. "Quem dos senhores tem um carro particular com 20 anos e faz uma viagem com a certeza de que chegará?"

Durante a reunião, o vice-presidente e ministro da Defesa, José Alencar, defendeu proposta de emenda constitucional, em tramitação no Congresso que garante 2,5% do PIB para as Forças Armadas. Atualmente, Exército, Marinha e Aeronáutica gastam 1,5% do PIB.

A reunião contou com poucos senadores. No início do encontro, apenas seis senadores estavam presentes. Os três primeiros a falarem usaram o microfone para pedir desculpas por terem de se retirar. O senador Saturnino Braga (PT-RJ), presidente da comissão, sugeriu o adiamento da reunião ou que se discutisse o problema numa outra reunião marcada para comemorar o Dia do Marinheiro. O general Francisco Albuquerque reagiu: "Algumas abordagens devem ser restritas. Estamos tratando de segurança nacional". A reunião, então, foi mantida e durou cerca de cinco horas.

terça-feira, dezembro 13, 2005

Nano-Armor

A ApNano, uma companhia israelense, desenvolveu um novo material que é cinco vezes mais forte que o aço e duas vezes mais forte que qualquer colete à prova de balas ou roupa utilizada por esquadrões antibomba. Fruto da nanotecnologia, seus criadores dizem que ele já pode ser considerado a "armadura do futuro".


Illustration photo - medieval armor.
The discovery of the extraordinary wave-shock absorption quality of the IF materials, position it as one of the best candidates for future protective gear and armor.

O material é produzido pela ApNano através de nanoestruturas de uma nova forma de carbono. A empresa espera que, em breve, a nova tecnologia seja utilizada em todos os segmentos de segurança do planeta que exijam equipamentos de alta resistência contra tiros e bombas.

Em testes realizados na Escola de Engenharia de Produção, Mecânica e de Materiais na Universidade de Nottingham, na Inglaterra, projéteis de aço a uma velocidade de mais de 1.5 km/segundo foram contidos pelo material. O impacto a que ele resistiu foi uma pressão de 250 toneladas por centímetro quadrado. Isso equivale, aproximadamente, a jogar quatro locomotivas a diesel sobre uma área do tamanho de uma unha.


Some of the equipment that's being used to produce the Inorganic Fullerene materials at ApNano's laboratories in Nes Ziona, Israel.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Controle remoto comanda seres humanos

A Nippon Telegraph & Telephone (NTT), empresa líder de telefonia no Japão, mostrou um controle remoto capaz de comandar seres humanos. A companhia diz estar criando uma nova tecnologia para tornar videogames mais realistas, mas algumas aplicações mais perigosas poderiam se tornar realidade.


Japão, 26/10/2005 - Usando um fone, a repórter da AP Yuri Kageyama vira para a esquerda enquanto é controlada remotamente pela tecnologia desenvolvida pela Nippon. A tecnologia, na verdade, mexe com os delicados nervos que controlam o equilíbrio dos seres humanos, fazendo com que se movam para a direção indicada mesmo contra a sua vontade.


A repórter da AP obedece ao comando do controle remoto, ainda que deseje mover-se para outra direção

O nome da tecnologia é "estimulação galvânica vestibular" e consiste em colocar um capacete que envia uma corrente elétrica de voltagem muito baixa para a parte de trás das orelhas. A corrente elétrica estimula os nervos delicados dentro da orelha que são responsáveis pelo equilíbrio.

Quando o joystick do controle é colocado para a esquerda, um estímulo elétrico é enviado para o capacete, fazendo com que o senso de equilíbrio seja deslocado. Isto faz com que a pessoa ache que precisa dar um passo à esquerda para não cair. A tecnologia foi testada em uma repórter da Associated Press.

Pesquisadores da NTT foram capazes de fazer pessoas se locomoverem em trajetos razoavelmente complicados. As pessoas que foram controladas pelo aparelho disseram que a experiência é extremamente exaustiva e, embora algumas tenham gostado da experiência, outras sentiram-se desconfortáveis.


Taro Maeda, pesquisador-sênior no centro de pesquisas da Nippon Telegraph and Telephone Corp. em Atsugi, perto de Tóquio, explica a tecnologia usada no controle remoto para humanos. A tecnologia, chamada de estimulação vestibular galvânica, usa eletricidade para estimular os delicados nervos dentro do ouvido que ajudam os humanos a manter o equilíbrio.

Ainda não há provas específicas de porque a corrente elétrica, quando aplicada ao ouvido, faz com que as pessoas caminhem. A NTT diz que a tecnologia pode ser usada em videogames e parques de diversão, mas ainda não tem planos de comercializar o produto.

James Collins, professor de engenharia biomédica na Universidade de Boston, diz que o nível baixíssimo de eletricidade não deve causar dano nenhum à saúde dos usuários.

Se utilizada em uma guerra, tal tecnologia poderia servir para fazer o soldado advesário ficar tonto, ou perder o equilíbrio. A Invocon Inc., uma empresa norte-americana com sede no Texas, já está explorando o tema.

quarta-feira, outubro 19, 2005

Reféns do pacifismo

Resumo: O pacifismo é a ideologia dos "puros", dos "bem intencionados", mas também dos ingênuos e dos inocentes úteis.

Dia desses, assistindo pela televisão a mais uma das inúmeras passeatas pró-desarmamento que proliferam no Rio de Janeiro a cada final de semana, com meia-dúzia de artistas, "ongueiros" e
pseudo-intelectuais puxando um mar de gente vestida de branco, distribuindo flores e berrando palavras de ordem pela paz e contra a violência, perguntei-me quanto tempo ainda demoraria para aquela multidão se dar conta de que esse é exatamente o jogo que mais interessa ao inimigo. Um inimigo, diga-se, cujos propósitos não serão alterados, sequer num milímetro, pelas belas e alvas imagens dessas manifestações. Ato contínuo, lembrei-me de José Ortega y Gasset e sua análise precisa sobre o pacifismo, a ideologia dos puros, dos bem intencionados, mas também dos ingênuos e dos inocentes úteis.

Em artigo datado de 1937, antes portanto do início das hostilidades entre a Alemanha de Hitler e os aliados da Europa Ocidental, falando especificamente sobre a política pacifista que imperava na Inglaterra desde o final da Primeira Guerra, Gasset apontava o enorme fracasso em que ela se transformara - principalmente quando cotejada com o poderio bélico amealhado pelos nazistas naquela década. Mesmo concordando que a aspiração à paz mundial era uma excelente aspiração, o pensador espanhol demonstrava, com sua lógica irrefutável, o erro crasso do pacifista ao subestimar o inimigo, ao achar que o inimigo pensa e age da mesma forma que ele, que comunga dos mesmos anseios e princípios.

Para Gasset, o pacifista só vê a guerra como um dano, um crime ou um vício, e esquece que, antes e acima disso, a guerra também pode significar um ato, um esforço, uma estratégia de defesa contra a barbárie. O pacifista pensa que para eliminar a guerra [e a violência] basta não fazê-la ou, no máximo, pedir para que não seja feita. Como a considera apenas uma excrescência mórbida surgida no relacionamento humano, acredita que bastam boas intenções e apelos emocionais para extirpá-la das relações sociais. Não enxerga que a paz precisa ser construída com energia e destemor, que a violência precisa ser combatida com armas, quando não superiores, pelo menos iguais às do inimigo.

Não é, portanto, como bem definiu o espanhol, "a vontade de paz o fator decisivo". É preciso que esse vocábulo deixe de significar uma boa intenção e passe a representar um sistema funcional eficiente. Não se poderá esperar nada de fértil nesse campo enquanto o pacifismo não deixar de ser um erro gratuito e cômodo, para ser um complexo conjunto de técnicas sofisticadas de combate aos inimigos da paz. Rudolph Giuliani mostrou, alguns anos atrás, em Nova York, como se opera tal "milagre".

O maior dano que o pacifismo ocasiona consiste, na maioria das vezes, em mascarar as verdadeiras causas do problema. No caso concreto do Brasil, estamos falando da total omissão do Estado naquilo que deveria ser a sua função essencial: o exercício eficiente do poder de polícia. Sucessivos governos venderam aos crédulos ilusões de igualitarismo, distribuição de renda, "justiça social", etc., mas falharam todos naquilo que deveria ser a sua atividade primordial: proteger a vida, a liberdade e a propriedade dos cidadãos. Aliás, como bem lembrado por Jean-François Revel, reverberar essa falácia esquerdista de que a melhor maneira de combater a violência é através de ações assistencialistas para extirpar a pobreza e as desigualdades, é atribuir àquela uma causa que o exame dos fatos não corrobora. Essa argumentação escatológica serve apenas para encobrir a mais completa e absoluta impotência do Estado para formular uma estratégia operacional eficiente do ponto de vista da segurança.

Insistir na cantilena pacifista, como nos lembra o grande Winston Churchill, só nos levará a sacrificar "qualquer vestígio de sensatez ou propósito, esbanjando um palavrório de chavões enquanto o inimigo prepara as suas armas". De fato, como muito bem salientou o ex-primeiro ministro inglês, em palavras que se encaixam como uma luva ao caso brasileiro atual, "a obstinada recusa [dos políticos] a enfrentar fatos desagradáveis, o desejo de popularidade e sucesso eleitoral gratuitos, contrariando na maioria das vezes os interesses vitais da nação, o autêntico amor pela paz e a evidente falta de vigor intelectual [da população], constituem os elementos centrais para a perpetuação da fatuidade e da inépcia, que, embora predominantemente desprovidas de malícia, não são isentas de culpa".

Parafraseando a escritora italiana Oriana Fallaci, eu encerraria dizendo que "detesto a violência como os pacifistas, de má ou boa fé, nunca a detestarão". Entretanto, "quando a paz significa rendição, medo, perda da dignidade, NÃO é paz. É suicídio". Eu rejeito o argumento esdrúxulo segundo o qual o porte legal de armas por pessoas de bem induz a violência. Muito pelo contrário, acredito que a defesa da dignidade e da liberdade individuais é e será sempre prioritária. Se hoje proíbem o comércio legal de armas, amanhã poderão proibir as artes marciais, os facões de cozinha, as pistolas de prego, as chaves de fenda, os automóveis ou qualquer outra coisa, simplesmente porque alguns fizeram mau uso deles. Aqui no Rio de Janeiro chagaram ao absurdo de propor uma lei proibindo o transporte em "garupa" de motocicleta porque o número de assaltos perpetrados por elas havia aumentado.

NÃO. Não é, definitivamente, tirando a liberdade de escolha do cidadão que se combate a violência. NÃO podemos deixar que o Estado jogue sobre os nossos ombros uma responsabilidade e uma culpa que são, exclusivamente, dele.

por João Luiz Mauad em 06 de outubro de 2005

sábado, outubro 15, 2005

Ultra AP (Armored Patrol)


O corpo de fuzileiros navais americano (Marines) mostrou um conceito de veículo blindado para ser usado por patrulhas que pretendem passar por estradas onde o Hummer já está sendo caçado.

Chamado de Ultra AP (Armored Patrol), o conceito foi desenvolvido baseado em novas tecnologias disponíveis para proteção contra armas e minas, usando blindagem tradicional e com novos materiais. O veículo foi projetado pela the Georgia Tech Research Institute com apoio financeiro do equivalente ao Ministério da Marinha americano.

Usando chassi exclusivo e motor a diesel de alta potência o conceito possui grande altura livre do solo, uma cabine alta com superfícies inclinadas para cima dando maior proteção aos disparos vindos debaixo ou do nível da rua. Se você olhar com atenção verá uma série de acessórios externos e prateleiras onde pode-se levar tralhas ou sacos de areia que atrapalham mais ainda os impactos, principalmente de RPGs anti-tanque. Nota-se um escapamento altíssimo na traseira mais nenhuma entrada de ar com snorkel para a respiração do motor.

O motorista fica numa posição central, os outros 3 soldados ficam sentados um de costas para o outro: cada um dos quatro olha para um lado.

Um dos destaques desse conceito é ter uma cabine de “sobrevivência”, como já encontrada de forma semelhante em alguns helicópteros e aviões de combate: numa grande explosão ela se solta do veículo e sai rolando por aí, dissipando a onda de choque.




Lugar para o motorista e mais quatro soldados




Estatuto do desarmamento

Um texto que achei interessante... só não sei se é totalmente verdade

Notaram, implicaram só com a comercialização? Por que será? Vamos lá... existe na lei do comércio exterior um ponto que diz: Um país só pode vender um produto para outro país, se a comercialização do mesmo tipo de produto for permitido no primeiro país. Ou seja, o Brasil só pode vender abacaxí para os Estados Unidos se no Brasil for permitido o comércio de abacaxís.


Pois bem, à luz dos fatos:
Se a proibição for referenciada, o Brasil não poderá vender sua produção de armas de fogo para os Estados Unidos, porque a comercialização de armas de fogo e munição será proibida no Brasil.
A indústria Americana agradece.

Vocês vão perguntar, é só por isso que você ficou indignado? Você só quer defender a industria bélica brasileira? Antes de responder, vamos aos fatos, os que realmente importam: Vocês sabiam que o Brasil desenvolveu tecnologia e têm fabricado uma das melhores armas de baixo calibre? Que os exércitos de todo o mundo utilizam armas brasileiras? Que mais 99% da produção de armas brasileiras é para exportação? Que 90% das exportações de armas do Brasil vão para os Estados Unidos? E que isso representa apenas
20% do mercado americano? Realmente parece que o Brasil está incomodando...

Ai você vai me dizer: "É, parece realmente que você só quer defender a industria bélica brasileira". Eu digo não. A indignação é muito maior. Notaram que tudo que o Brasil tem de bom (laranjas, aviões) os grandes países querem aniquilar? Comprando deputados e sei lá mais quem, conseguem levar leis como essa adiante. Sempre é a mesma história, uma farsa por trás de uma questão com apelo popular e emocional para garantir interesses baixos e desonestos. Todos sabem que as pessoas que mandam nesse país não merecem a confiança do povo, todos sabem que as coisas no Brasil não são como parecem ser. Mais uma vez esses corvos estão entregando os nossos interesses, os do povo, os do Brasil de fato. Mais uma vez estão enganando você.

Decidam! Mas antes, por favor, entendam as coisas da maneira correta. E façam a opção conscientemente e não como gado guiado pela mídia comprada por interesses menores para distraí-lo dos verdadeiros interesses em jogo!

Não estamos votando em desarmamento, esta já existe desde 2003, estamos votando na proibição da comercialização!


1) O Estatuto do desarmamento já existe desde de 22 de dezembro de 2003, conhecido como Estatuto do Desarmamento a lei é a 10.826.

2) O porte de arma é somente permitido para integrantes das forças armadas; guardas municipais em serviço dependendo ainda do número de habitantes, somente cidades com mais de 500 mil habitantes, entre 50 mil e 500 mil pode portar a arma somente em serviço; integrantes de escoltas e forças portuarias, empresas de segurança privada e de transporte permitidas por lei, os agentes operacionais da Agência Brasileira de Inteligência e os agentes doDepartamento de Segurança do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.

3) Em regra, a lei proíbe o porte de armas por civis, com exceção para casos onde há ameaça à vida da pessoa. Isto é visto já no estatuto do desarmamento.

4) Há diferença entre o porte e o registro da arma. "O registro é o documento da arma, ele deverá conter todos os dados relativos à identificação da arma e de seu proprietário. Esses dados deverão ser cadastrados no Sinarm (Polícia Federal) ou no Sigma (Comando do Exército). O porte é a autorização para o proprietário andar armado" http://www.mj.gov.br/seguranca/desarmamento.htm.

5) Quem possui arma de fogo somente poderá tê-la sob sua posse no interior de sua residência.

6) Somente podem andar armados os responsáveis pela garantia da segurança pública, integrantes das Forças Armadas, policiais, agentes de inteligência e agentes de segurança privada.

Lendo o texto da Lei parte da qual transcrevo abaixo, para que todos possam ler e se inteirar do que estão prestes a decidir, temos:
................................
CAPÍTULO VI

DISPOSIÇÕES FINAIS

Art. 35. É proibida a comercialização de arma de fogo e munição em todo o território nacional, salvo para as entidades previstas no art. 6o desta Lei.

(Integrantes das forças armadas; guardas municipais em serviço dependendo ainda do número de habitantes, somente cidades com mais de 500 mil habitantes, entre 50 mil e 500 mil pode portar a arma somente em serviço; integrantes de escoltas e forças portuarias, empresas de segurança privada e de transporte permitidas por lei, os agentes operacionais da Agência Brasileira de Inteligência e os agentes do Departamento de Segurança do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República).

§ 1o Este dispositivo, para entrar em vigor, dependerá de aprovação mediante referendo popular, a ser realizado em outubro de 2005.

§ 2o Em caso de aprovação do referendo popular, o disposto neste artigo entrará em vigor na data de publicação de seu resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Observaram? Não? O problema é tão sutil que poucos compreendem. Vou tentar explicar.

Leiam novamente o Art.35 "É proibida a comercialização de arma de fogo e munição em todo o território nacional".

O porte de arma continua o mesmo do estatuto do desarmamento. Quem possui arma registrada não será obrigado a devolvê-la, aquele que precisar ter uma arma vai ter que importá-la e registrá-la devidamente no orgão competente. Caso das empresas de segurança privadas.

terça-feira, outubro 11, 2005

Aristocracia da bala

Por Reinaldo Azevedo

O texto que segue, de autoria de Reinaldo Azevedo, foi publicado no sábado passado, dia 8 de outubro, na página 7 do jornal O Globo
Não sei até quando O Globo me atura. Pelo tempo que durar, os leitores verão, jamais adoto o estilo didático. Não sou pastor de idéias. Como no poema de Fernando Pessoa, não pego ninguém no braço e detesto que me peguem. Se Virgílio aparecer, vou com ele ao inferno. Como ele não vem, vou para o diabo sozinho. O bem só é bem se o for no fundamento, no objetivo e nos meios. Falhando um deles, é o contrário. Referendo das armas? Voto "Não". O fundamento é não matar? É bem. O objetivo é reduzir a violência? É bem. O meio implica privar o indivíduo do direito de autodefesa? É o mal que se insinua no bem; é o mal essencial.

Só vi revólver fora do coldre como vítima de assalto. Duas vezes. Numa terceira, estava na casa da minha mãe, ouvi um barulho assustador e saí à rua. Um sujeito tinha dado com o carro no poste. Fui socorrê-lo. Minhas filhas, então com 8 e 6 anos, me seguiram, assustadas e curiosas. O veículo era roubado. Ele saiu atirando na nossa direção. Era um passional. Não entregou seu instrumento de trabalho a Márcio Thomaz Bastos. Deve votar "Sim". Nem todo mundo do "Sim" é como ele, eu sei. Não satanizo os que divergem de mim. Quem vota "Não" é tratado como brucutu. Ah, a intolerância dos tolerantes!

Não tenho nem terei armas. Meu delírio de violência é matar passarinhos. Não sou um homem bom. Tentam mandar em mim com sua rotina anunciando auroras: "Vai dormir, vai dormir". Fico destroncando seus pescocinhos em pensamento como quem conta carneiros. Até apagar. São obsessivos. Eu não acredito em auroras. O dia nasce ainda que não cantem. Que imitem Marilena Chaui – a que cala, não a que fala.

Faz-se uma pergunta às avessas. É duplipensar orwelliano. Por que não ir ao ponto: "O cidadão deve ter o direito de usar uma arma legal para se defender?" Em vez disso, optou-se pelo "Sim" que é "Não" e pelo "Não" que é "Sim". O referendo é inconstitucional. Não se põe em questão o direito de autodefesa. É raiz gêmea do princípio que preserva um indivíduo de se auto-incriminar. Há uma inviolabilidade do sujeito no Estado de Direito a que nenhum interesse coletivo se sobrepõe. Mais: as estatísticas em circulação não valem. Consta que a maioria das armas apreendidas com bandidos pertencia a cidadãos comuns. É mesmo? A amostragem é científica? Ora...

Outro argumento é que o homem de bem sempre leva a pior no confronto com marginais. Eis a estóica rendição do indivíduo e do Estado ao crime. Bandido virou dado da paisagem, como o Pão de Açúcar ou o Pico do Jaraguá. Até na Coréia do Norte o cara pode se matar se quiser. Enquanto isso, Bastos não entrega os presídios federais, não tira do papel o Plano Nacional de Segurança nem se move para unificar as Polícias. Está ocupado demais tentando nos proteger de nós mesmos – e livrar Lula de encrencas – para nos proteger dos criminosos. Eis o homem.

Proíbam-se as viúvas de tomar Chicabom no portão, e surgirá a máfia das viúvas assassinas. A vitória do "Sim" que é "Não" aproximará o cidadão comum do submundo, que vai lhe fornecer a arma. A proibição só será virtuosa se inócua. Ou imaginemos a eficácia total: arma passa a ser monopólio do Estado e do crime organizado. Como o Estado jamais atende o telefone, bastará ao bandido dotado de seu "meio de produção" tocar a campainha de nossa casa e levar o que for de seu agrado. Terá estuprado o nosso direito, mas não nos terá matado, como diria Kant. Ou não foi ele? Alguém garante que ficarmos expostos aos bandidos é um mal menor do que eventuais acidentes domésticos com armas?

Queria ser bacana como os artistas do "Sim", alguns sempre acompanhados de seguranças – armados, claro – como cansei de ver no aeroporto Santos Dummont. Também há empresários simpáticos à causa. A vitória do "Sim" criará a aristocracia da bala: alguns terão o direito constitucional à segurança armada, privada, legal, exercida por empresas. O resto que faça a negociação direta com o crime. É o máximo do Estado mínimo! Já adverti: não valho nada, não quero convencer ninguém, não sou bom e torço em pensamento pescoço de passarinhos.

terça-feira, setembro 27, 2005

A lógica do horror

POR MAX RODENBECK, DO THE NEW YORK REVIEW OF BOOKS
Ônibus destruído pelo atentado de 7 de julho de 2005, em Londres

Pare por um instante para lembrar o clima que dominou Washington imediatamente depois do 11 de Setembro. Havia pesar, raiva e perplexidade, seguidos bem de perto por uma implacável determinação de contra-atacar. Esta última reação evoluiu, dentro do establishment que determina as políticas americanas, para uma disposição de ir além da simples punição ou contenção do agressor, aproveitando para explorar o momento e promover uma agenda bem mais ampla.

Era compreensível. O passado americano oferece muitos exemplos da transformação de aparentes reveses em vantagens radicais e duradouras. O naufrágio do encouraçado Maine (1898) é um episódio que vem à cabeça, ou o do transatlântico Lusitania (1915) por um submarino alemão, ou o de metade da frota do Pacífico em Pearl Harbor (1941). Mais recentemente, a invasão do Afeganistão pelos soviéticos expôs um nervo que permitiu aos Estados Unidos e a seus aliados minar o Império do Mal, do mesmo modo como a investida de Saddam Hussein no Kuwait em 1990 revelou uma oportunidade para atingir vários objetivos americanos, desde esmagar o exército daquele homem tão perigoso até testar e fazer demonstrações de poder com as armas mais novas, passando por dar uma advertência e espantar rivais em potencial dos importantíssimos recursos petrolíferos do Golfo.

"Dizemos sem rodeios: eles são loucos, mas são loucos que têm sua própria lógica, seus ensinamentos, seu código, até seu Deus, e isso está o mais arraigado possível"
- Fiódor Dostoiévski

Essas reações excessivas e estratégicas tiveram todas alguma coisa em comum. Em cada um dos casos, a identidade e a natureza do inimigo estavam absolutamente claras. Na maioria deles também pouco se discutiu para esclarecer o que estava em jogo, as vantagens a ser conquistadas, os melhores meios de consegui-las (o que normalmente signifi- cou o uso de uma força arrasadora).

Mas, embora os ataques contra Nova York e Washington parecessem se encaixar na primeira parte desse modelo histórico, eles não se adequaram muito bem ao restante dele. Ali estava mais um dos "ataques traiçoeiros" que pontuaram a ascensão americana, exigindo outra resposta esmagadora. Mas onde estava o inimigo e quem era ele? Quais haviam sido suas razões para atacar? Qual era, além de meramente destruir aquele adversário, o prêmio estratégico a ser conquistado, prêmio que certamente deveria fazer jus a uma superpotência global imbatível? Quais eram os instrumentos apropriados a utilizar nessa missão mais abrangente? Quais eram os riscos?

Hoje está claro que, ao se lançar num contra-ataque grandiloqüente, a política americana de certa forma se perdeu. Talvez, no fim das contas, cheguemos à conclusão de que os proclamados valores da liberdade, da tolerância e do jugo da lei acabaram triunfando de alguma forma. Talvez cheguemos à conclusão de que os Estados Unidos garantiram vitórias estratégicas tangíveis. Mas pode-se dizer tranqüilamente que a oportunidade imediata oferecida pelo 11 de Setembro para promover ideais ou para ampliar a influência foi mal utilizada.

As ações americanas se mostraram terrivelmente caras. Menos tangíveis são a perda de prestígio e de credibilidade

A chamada Guerra Global contra o Terror, o GWOT, como a administração Bush rotulou no princípio a ofensiva contra forças do mal de definição bastante vaga, certamente teve algum sucesso - de modo mais notável no Afeganistão, onde, apesar de toda a instabilidade atual, a vida hoje é provavelmente menos sombria que sob o domínio do Taleban. Mas as ações americanas também se mostraram terrivelmente caras e ineficazes. Só o custo de todas as operações militares ofensivas para o contribuinte dos EUA desde o 11 de Setembro é estimado em cerca de US$ 300 bilhões. A ocupação iraquiana está custando cerca de US$ 60 bilhões ao ano, uma soma consideravelmente maior que o próprio PIB do Iraque e 20 % maior que o orçamento anual da cidade de Nova York. Outros custos incluem as vidas de quase 1.800 soldados americanos, assim como as de vários milhares de afegãos e as de dezenas de milhares de iraquianos, a maioria civis. Menos tangíveis são a perda de prestígio e credibilidade dos Estados Unidos diante de grande parte do mundo, e a galvanização de solidariedade a forças que podem ser hostis aos interesses americanos. Todas as pesquisas de opinião com muçulmanos realizadas desde o 11 de Setembro mostram uma desconfiança cada vez mais profunda em relação aos Estados Unidos. A porcentagem de sauditas que manifestam confiança nos EUA, por exemplo, encolheu de 60 % em 2000 para apenas 4 % em 2004. Sem contar que o principal culpado, Osama bin Laden, continua à solta.

Os Estados Unidos caíram exatamente na armadilha que os executores dos ataques de 11 de Setembro acreditavam estar armando. Criaram novos inimigos. Afastaram antigos aliados. E é possível dizer que não fizeram do mundo um lugar mais seguro, como mostraram os recentes ataques em Londres.

São múltiplos os motivos para esse fracasso. Pode-se citar, por exemplo, a predisposição para apelar às armas mais óbvias ao alcance, como bombas e mísseis, em vez de recorrer a meios de persuasão mais sutis. Outra falha institucional é a atribuição automática da culpa pela situação dos EUA a agentes externos, como os chamados estados-vilões, em vez levar em conta a responsabilidade das próprias políticas americanas (ou da imaginação de Washington) por ter ajudado, mesmo sem intenção, a criar seus inimigos. Outros fatores também tiveram um papel evidente, como o instinto político de buscar a glória, de explorar os medos da população e seu desejo por ações e também por vingança. Essas motivações políticas acabaram se traduzindo num péssimo excesso de entusiasmo por parte de comandantes e soldados.

Especialmente crucial, porém, foi a incapacidade do gigantesco aparato de inteligência dos EUA de realizar sua função básica, a de conhecer o inimigo. Ela se provou incapaz de fornecer o simples entendimento de contra quem ou o que os Estados Unidos estavam lutando. Era só Osama bin Laden e sua organização, a Al Qaeda? E, se fosse, qual era a daquele homem? O que atraía as pessoas às idéias dele? Qual o melhor meio de desarmar seu poder? O perigo era o "terror" em geral, ou uma variedade específica do fundamentalismo muçulmano, ou talvez uma falha na política do Oriente Médio que transformou a região inteira num campo fértil para a hostilidade contra os EUA?

Jonathan Randal apresenta Bin Laden e os jihadistas como ele não como fanáticos malucos, mas como agentes racionais

As respostas para essas perguntas foram ficando mais claras com o passar do tempo. Algo como um consenso parece de fato estar surgindo sobre as causas, os efeitos e a melhor maneira de lidar com o radicalismo islamita violento. O triste, no entanto, como mostram as publicações recentes sobre esse "inimigo", é que os conselhos mais sábios vêm emanando de fora do establishment que determina as políticas americanas. Só agora eles parecem estar conseguindo penetrar em Washington.

Jonathan Randal, o experiente correspondente de guerra que escreveu livros esclarecedores sobre a guerra civil do Líbano e sobre os curdos, já se interessava por Osama bin Laden muito antes do 11 de Setembro. Osama: the making of a terrorist (em português, Osama: a formação de um terrorista), um olhar leve e digressivo sobre o maior fugitivo do mundo, parte biográfico e parte analítico, não revela muitos fatos novos. A história básica do rico que adere à pobreza é, afinal, bastante conhecida hoje, e apesar dos longos anos de tentativas, Randal nunca ganhou na loteria jornalística que seria obter um encontro cara a cara com Bin Laden (curiosamente, o mais perto que chegou disso foi quando o mentor-mor da Al Qaeda instruiu um intermediário paquistanês a achincalhar Randal pela péssima qualidade da tradução para o árabe de seu pedido - recusado - de entrevista feito por escrito).

Bin Laden, líder da Al Qaeda, numa rara imagem feita em 2003 num lugar desconhecido do Afeganistão

No entanto, mesmo sem revelações marcantes, a abordagem de Randal, que combina materialismo e um bom senso impassível, é um contraste saudável a grande parte dos comentários sobre o assunto. Para começar, ele apresenta Bin Laden e os jihadistas globais que pensam como ele não como fanáticos malucos, mas como agentes racionais. A visão de mundo deles certamente difere da da maioria dos movimentos, já que se origina de um conjunto peculiar de pressuposições históricas, mas não deixa de ser uma visão de mundo plenamente coerente em si mesma.

Randal explica que, na percepção dos radicais islamitas, a verdadeira Cortina de Ferro criada pelo comunismo não foi a que separou a Europa Ocidental do Leste Europeu, mas sim a que isolou os muçulmanos da Ásia Central e do Cáucaso dos muçulmanos das áreas centrais para a religião. Por isso, engajar- se na jihad nessas regiões "era menos uma questão de expansionismo e mais uma questão de reconquistar o que havia sido perdido". Para eles, em outras palavras, o colapso da União Soviética marcou menos a conclusão da Guerra Fria e mais o ponto de partida de uma potencial reconquista muçulmana.

O significado de apreensões como essas foi muitas vezes ignorado pelos responsáveis pelas políticas ocidentais. Randal cita, por exemplo, Zbigniew Brzezinski, ex-assessor de segurança nacional dos EUA, que defendeu a intervenção americana no Afeganistão nos anos 1980 - que alimentou a jihad - perguntando o que importava mais para o mundo, "alguns muçulmanos revoltados ou... o fim da Guerra Fria". Analisados isoladamente, argumentos como esse podem parecer convincentes (se se assumir que foi o Afeganistão que derrubou definitivamente os soviéticos, o que é discutível). Mas, multiplicados pela série de outras iniciativas americanas de política externa que revoltaram ainda mais os muçulmanos, muitas vezes desnecessariamente, permitem começar a compreender os processos que estão por trás da crescente demonização dos Estados Unidos por parte dos islamitas. Como ressalta Randal em outro ponto, o problema era que os EUA "dominaram desvairadamente o planeta, mas recusaram-se a cuidar dos palestinos e caxemirianos, cada vez mais feridos". A conclusão a que muitos muçulmanos, e não apenas os radicais, chegaram foi que a aparente surdez dos Estados Unidos aos apelos muçulmanos não era simplesmente uma deficiência auditiva nacional, mas sim uma política deliberada que objetivava dividi-los e enfraquecê-los.


CRONOLOGIA

1993
Atentado a bomba contra o World Trade Center, em Nova York, mata seis e provoca US$ 500 milhões em prejuízo

1995
Carro-bomba explode na frente de posto militar dos EUA em Riad, na Arábia Saudita, e mata cinco

1996
Carro-bomba explode em frente a um edifício do serviço público dos EUA e deixa 168 mortos

1998
Atentados a bomba nas embaixadas dos EUA no Quênia e na Tanzânia matam 224

2000
Explosão em um destróier da Marinha dos EUA que estava atracado no porto de Áden, no Iêmen, mata 15

2001
No dia 11 de setembro, ataques coordenados, com quatro aviões comandados por seqüestradores, destroem as torres gêmeas do World Trade Center de Nova York, além de causar o desabamento do prédio 7 do complexo e abalar a estrutura de outros edifícios. O Pentágono também teve metade de sua construção atingida pela queda de um dos aviões, 2.749 pessoas morreram nas torres

EUA invadem o Afeganistão à procura de Osama Bin Laden


2003
EUA iniciam no dia 19 de março o bombardeio do território iraquiano A operação para derrubar Saddam Hussein termina no dia 1o de maio, após prisão do líder iraquiano
2004
Explosões simultâneas no metrô de Madri no dia 11 de março matam cerca de 200 pessoas, no pior atentado da história da Espanha
2005
Explosões simultâneas no metrô de Londres no dia 7 de julho matam 56 pessoas Um brasileiro inocente, Jean Charles de Menezes, 27 anos, é considerado suspeito pela polícia britânica e morto com oito tiros No Egito, 64 morrem após explosões em balneário

Foi o lento envenenamento das ações contra os Estados Unidos que deu a Bin Laden uma oportunidade histórica. O magrelo 17º filho dos 24 de um milionário já tinha feito bastante para inspirar os jovens muçulmanos com o romantismo da jihad anti-soviética no Afeganistão. Com o assassinato de seu mentor ideológico, o palestino Abdullah Azzam, em 1989, Bin Laden ascendeu a uma figura de destaque dentro da corrente ideológica crescente que era chamada, em árabe, de salafistas jihadistas - o salafismo é uma escola que prega a adesão restrita aos salaf, ou ancestrais, isto é, os primeiros companheiros e intérpretes do Profeta.

Só que Bin Laden viu-se, em meados dos anos 1990, isolado nas terras áridas afegãs, depois de ter sido despojado da nacionalidade saudita e expulso do Sudão, de governo ostensivamente "islamita". Entre seus companheiros de acampamento, maltrapilhos remanescentes da legião estrangeira muçulmana no Afeganistão, a chama da jihad ainda ardia. Mas faltava um escape satisfatório e imediato para seu entusiasmo. As insurgências radicais haviam sido derrotadas, ou fortemente restringidas, em vários fronts locais, do Egito à Argélia, passando pelo sul das Filipinas. A maior parte dos muçulmanos comuns desses países, observa Randal, não só deixara de aderir à luta como também questionava as premissas que a sustentavam.

Bush, durante pronunciamento sobre religião e política em junho de 2004
Como os "inimigos próximos" da Ásia e do Oriente Médio estavam se mostrando inconvenientemente resistentes, surgiu a idéia de transferir o ímpeto jihadista para o "inimigo distante". Atingir os Estados Unidos marcaria pontos por si só, já que o país era visto como um pilar de sustentação de regimes muçulmanos comprometidos, como os do Egito e da Arábia Saudita, que Bin Laden tinha como alvo. A ousadia de atacar a mais forte potência mundial colocaria o Islã (ou a versão que os jihadistas têm dele) no cenário político como uma força de estatura equivalente. Isso não apenas inspiraria os jihadistas relutantes a aderir à luta; também colaboraria para consolidar o sentimento crescente, entre os muçulmanos, de que sua fé estava sendo ameaçada e precisava de defesa.

Os ataques de 11 de Setembro, mais destrutivos do que poderia ter sonhado quem os planejou, foram o resultado extremo desse modo de pensar. "Os ataques contra Nova York e Washington foram idealizados não somente como um troco pelas injustiças reais e imaginárias das quais, para ele, os muçulmanos tinham sido vítimas, mas também para deflagrar esse incêndio.''

Trata-se de uma estratégia pouco original. Em Globalized Islam: the search for a new Ummah (O Islã globalizado: a busca por um novo Ummah), Olivier Roy, um dos principais acadêmicos do islamismo moderno na França, observa paralelos marcantes entre os jihadistas de hoje e a esquerda radical da Europa nos anos 1960 e 1970. Os dois movimentos alimentaram-se de reservatórios sociais semelhantes de jovens alienados e deslocados. Escolheram símbolos (barbas, armas e textos "sagrados": o Alcorão substituindo Marx; Sayed Qutb, o egípcio cujas teorias inspiraram a Irmandade Muçulmana, no lugar de Gramsci) e alvos ("imperialismo", "globalização", "americanização") parecidos. A idéia jihadista de uma Ummah - ou nação - pan-islâmica, diz Roy, lembra a idéia trotskista do proletariado: "Uma comunidade imaginária e portanto silenciosa que confere legitimidade aos pequenos grupos que fingem falar em seu nome". O triunfo do Islã é propalado, como já foi um dia o do socialismo, como "inevitável".

Jonathan Randal remete a mais ecos com o depoimento à Raskólnikov de um convertido à Al Qaeda que havia sido preso, Kemal Daoudi. Filho de imigrantes argelinos que viviam na França, Daoudi era um estudante de engenharia brilhante. Mas, quando a pobreza obrigou sua família a se mudar para o subúrbio, subitamente despertou para o que chamou de "tratamento abominável dado a todos os 'eus' em potencial, que haviam sido condicionados a virar subcidadãos, que só serviam para trabalhar e pagar pela aposentadoria dos franceses 'de verdade' quando a base da pirâmide etária francesa estreitar".

O neofundamentalismo representa uma recodificação deliberada do Islã e do que significa ser muçulmano

Os jihadistas modernos também tomaram emprestada a idéia revolucionária clássica de que o modo mais eficaz de levantar as massas acuadas é incitando seus dominadores a agir com brutalidade, revelando assim o caráter supostamente verdadeiro - o exploratório - do relacionamento entre eles. O terrorismo obriga as sociedades "burguesas" a tirar sua máscara e mostrar suas garras, e portanto alerta o proletariado - ou nesse caso a Ummah, ou nação muçulmana - do real perigo que enfrenta. À luz dessa visão, é interessante o fato de referências extensas à autobiografia de Menachem Begin, The revolt (A revolta), de 1951, terem sido encontradas entre os arquivos de computador capturados num refúgio da Al Qaeda em Cabul. Como líder do grupo paramilitar Irgun, nos anos 40, o futuro primeiro-ministro israelense pregava o uso do terror para fazer a política se mexer.

Do mesmo modo como as Brigadas Vermelhas, acreditavam que seus atos expunham o fascismo latente do Estado italiano, os jihadistas acreditam ter desnudado a face verdadeira do imperialismo cruzado ocidental. Deixando de lado as muitas e variadas justificativas para as invasões punitivas do Afeganistão e do Iraque pelos EUA, o simples fato de haver uma intrusão militar ocidental em países muçulmanos já reforça, visual e visceralmente, a alegação da Al Qaeda de que o Islã está engajado numa guerra para sobreviver. Não foi à toa que o grupo de Bin Laden até tenha apoiado a reeleição do presidente Bush ou que seus aliados abracem com entusiasmo o que ele chama de análises culturais "preguiçosas" de pensadores ocidentais como Samuel Huntington.

Gilles Kepel, a mais conhecida autoridade francesa sobre o Islã político, observa em seu livro mais recente, The war for muslim minds (A guerra pelas mentes muçulmanas), mais uma semelhança entre a esquerda radical e a jihad islâmica, esta criada por impressões externas equivocadas. Huntington e outros intelectuais facilitaram a "transferência" sutil das hostilidades estratégicas utilizadas pelo Ocidente na Guerra Fria.

Há uma geração, muitos integrantes da esquerda radical deixaram de perceber uma transformação decisiva daquela época - a silenciosa absorção de seu eleitorado imaginário, o "proletariado", pela supostamente vil "burguesia". Os islamitas radicais de hoje parecem, de modo semelhante, não estar se dando conta de que eles próprios são produto da globalização a que professam resistência. Um dos aspectos desse ponto é o que Roy caracteriza como o caráter desterritorializado do islamismo moderno. Nenhuma nacionalidade domina a Al Qaeda. Muitos de seus ativistas parecem ser errantes, freqüentemente originados, como Kemal Daoudi, de regiões onde os muçulmanos vivem como minoria. O que os une é uma sensação comum de alienação. Quando se chamam uns aos outros de irmãos e adotam novos títulos de parentesco - Abu-isso ou Abu-aquilo -, parecem estar tentando criar uma espécie de nação virtual.

Tanque dos EUA vigia fronteira iraquiana, 2003

Em Understanding terror networks (Entendendo as redes de terror), Marc Sageman, sociólogo e ex-analista da inteligência, constrói um perfil das redes sobrepostas que acredita formarem a Al Qaeda. Ele identifica várias conexões, entre elas os fortes laços familiares e de amizade entre muitos dos integrantes, além de "aglomerados" de determinadas nacionalidades, como os grupos de origem marroquina responsáveis por vários ataques na Europa. A conclusão dele é que talvez seja mais exato descrever a violência jihadista como derivada do "amor pelos companheiros", e não como resultado do "ódio ao elemento externo".

Olivier Roy vai mais além e sugere que, embora os jihadistas salafistas (a quem chama de neofundamentalistas) acreditem representar a tradição, o que eles representam é uma forma negativa de ocidentalização. Tanto é assim que uma das principais inovações doutrinárias dos neofundamentalistas é o descarte da visão tradicional da jihad armada como uma responsabilidade coletiva.

O que a alteração representa, num sentido sutil, é a rejeição da autoridade do patriarca contemporâneo, seja ele identificado como o rei da Arábia Saudita ou simplesmente como o chefe de uma família muçulmana problemática. Assim como entre os seguidores ou delinqüentes baratos dos próprios Estados Unidos, esse pai já está, na experiência de muitos recrutas da jihad, bastante desacreditado pelo fracasso ou pela simples ausência. Essa rejeição, no entanto, aumenta o estresse sobre os jovens de sociedades fortemente paternalistas. Não é para menos que os códigos de vestimenta são marcas tão importantes para identificar os salafistas. A túnica curta e a barba desgrenhada, ou, no caso das mulheres, vestes negras que cobrem todo o corpo, têm o objetivo de lembrar os primeiros muçulmanos, cuja devoção a Maomé era intocada. Mas em grande parte do Oriente Médio essas mesmas roupas também sugerem uma rebelião contra a convenção das vestes ocidentais ou dos costumes folclóricos regionais.

A maioria das sociedades em que os muçulmanos vivem já está em grande parte secularizada, ou seja, moderna o suficiente para produzir condições perigosas de anomia e ódio sem direção. Isso obviamente acontece com as minorias muçulmanas no Ocidente, mas também ocorre com a juventude recém- urbanizada e freqüentemente desempregada, ignorante e sexualmente reprimida de cidades como Casablanca, Cairo e Riad. O neofundamentalismo pode ser uma força que impulsiona a secularização, já que representa uma recodificação deliberada do Islã e do que significa ser muçulmano. Em vez de uma fé de base territorial e tradicional, a versão do Islã deles é coisificada, desprovida de um cenário regional e reconstruída em oposição aos desafios que acreditam enfrentar, especialmente a superioridade militar e a presença americana em regiões do mundo muçulmano. A religião é substituída por uma religiosidade na qual a "resistência" torna- se o critério principal para a afiliação. O próprio Bin Laden uma vez declarou, numa entrevista, que o objetivo da Al Qaeda é dar à jihad o "status de devoção".

O discurso desse novo Islã, incorpóreo e adaptado, como se apresenta nos websites, por exemplo, tende a seguir o modelo de perguntar qual é a "opinião do Islã" sobre vários assuntos. Mas as respostas para tais perguntas, observa Roy, importam menos que a abordagem implícita nelas. A premissa não-declarada, argumenta ele, é que o Islã não é mais uma sociedade unificada de fiéis, mas sim uma que está sendo confrontada por influências modernas e seculares.

Fila de mulheres na porta de prisão no Iraque
A ordem cartesiana desses argumentos é um tanto abstrata demais. Por mais "secularizado" que o ambiente que cerca sua empreitada seja, o esforço dos islamitas para erguer um sistema dominante não-secular (com leis feitas por Deus e não por palavras, leis atemporais e não temporais) ainda possui um enorme apelo romântico, e ainda consegue mobilizar bastante força. Roy também negligencia os antecedentes não-ocidentais do jihadismo, como as várias revoltas locais.

A análise árida e racional de Roy representa, mesmo assim, um respiro bem-vindo em face tanto do refrão neoconservador de que o DNA da violência islamita está de alguma forma entranhado no Alcorão quanto da idéia popular liberal de que o terrorismo é simplesmente uma reação contra a intrusão ocidental. Ele acredita que muito do radicalismo islâmico representa uma tentativa de islamizar "um espaço já existente para o eleantiimperialismo e a contestação", o ressentimento pelo domínio da tecnologia e dos mercados pelos países ricos. O radicalismo islâmico apenas calhou de ser, neste momento, o produto com a embalagem mais chamativa num mercado de antídotos para a globalização que em sociedades mais estáveis e confortáveis é atendido, por exemplo, pelo ativismo ambiental.

A glorificação do suicídio - chame de martírio, se quiser, ou de arrebatamento - é, evidentemente, uma distorção especialmente doentia. Como afirma Faisal Devji em seu longo e brilhante ensaio sobre as bases éticas da jihad moderna, Landscape of the jihad (Panorama da jihad), os ataques suicidas a bomba também representam mais uma ruptura com a tradição muçulmana sunita, e podem ser na verdade um empréstimo das tradições shia, que os salafistas afirmam abominar. Mas, mais que ser atos de agressão, os ataques suicidas têm a intenção de mandar um recado, uma declaração de fidelidade, um sinal extremo de comprometimento total. O martírio, observa Devji com razão, "só ganha significado se for testemunhado pela mídia". Ele é, em resumo, um método horripilante de fazer publicidade.

O jihadismo global pode ser encarado como "moderno" em outros aspectos. Gilles Kepel tem uma descrição famosa da estrutura descentralizada da Al Qaeda, que afirma ser semelhante à de uma empresa de consultoria ou de franchising, "com Bin Laden sendo nada mais que o logotipo para operações triviais gerenciadas por microempresários independentes, que trabalham sob licenciamento para fornecer terrorismo". Utilizando uma terminologia também emprestada do mundo dos negócios, Devji caracteriza as afiliadas locais da organização como "investimentos especulativos". Alguns vingam. Outros fracassam.

Devji, que ensina história na New School, em Nova York, leva ainda mais longe a analogia entre a Al Qaeda e instituições globais como multinacionais e ONGs. Como movimento supranacional, sugere, a jihad atual pode ser interpretada como parte do que ele vê como a tendência básica da era pós-Guerra Fria: a substituição da política territorial por questões éticas. O próprio Bin Laden já declarou que os Estados Unidos não são o inimigo principal, e que o inimigo é o "cruzadismo global", uma abstração quase tão vaga quanto "terror". Os jihadistas tendem a ver o "Ocidente" como a imagem invertida do "Islã", ou, em outras palavras, como uma entidade metafísica. Ao observar que os líderes jihadistas costumam invocar pecados americanos como a não-assinatura do tratado de Kyoto ou os abusos de Guantánamo e Abu Ghraib, Devji sugere que a jihad deles é, na essência, um grito pela justiça universal, "um apelo perverso à ética".

É nesse sentido, afirma Devji, que o fi- lósofo francês Jacques Derrida descreveu os jihadistas como comparáveis àqueles que postulam o universalismo da cultura ocidental moderna. A guerra contra o terror transforma- se, dentro dessa visão, numa espécie de reação auto-imune, em que ideais caros como as liberdades civis ou o livre movimento do capital têm de ser sacrificados em nome do combate ao câncer jihadista. Talvez, diz Devji, os EUA possam até ser chamados de um "Estado suicida", "seu martírio refletindo os muitos martírios da jihad". Sem dúvida trata-se de um vôo alto demais da imaginação acadêmica. A guerra americana contra o terror não está indo tão bem. Nem a jihad.

Vinte anos atrás, Olivier Roy argumentou, em seu inteligente mas claramente prematuro livro The failure of political Islam (O fracasso do Islã político), que a autodeclarada pureza ideológica dos islamitas acabaria inevitavelmente diluída pelas necessidades práticas da política. Ele argumenta hoje que o jihadismo global também carrega em si as sementes de sua própria destruição, como um vírus que mata seu hospedeiro antes que este consiga transmitir a doença. A crueldade da Al Qaeda e suas ramificações, que já atingiram tantos países, já assombra e repugna muitos muçulmanos. E, com o fracasso na mobilização das massas muçulmanas, os jihadistas devem ser considerados não como uma ameaça estratégica capaz de alterar o equilíbrio de poder, mas como ameça à segurança que pode ser contida.

Isso não significa, na visão de Roy, que se devam evitar ações contundentes contra os jihadistas, ou que haja esperanças realistas de negociar com os radicais mais extremos. Significa apenas que combater uma "guerra global contra o terror" é uma tolice - "uma metáfora, não uma política", nas palavras dele - porque corre o risco de infundir em disputas locais os objetivos milenarista dos jihadistas. Isso, está claro, é exatamente o que está acontecendo; ao velho grito de guerra da Palestina une-se agora o do Iraque.

Gilles Kepel expõe de forma especialmente clara como a questão insuflou a chama da Al Qaeda. Como Kepel observa, a Al Qaeda escolheu lançar sua ofensiva de terror exatamente no momento em que a cobertura da segunda intifada palestina havia elevado o ódio muçulmano ao ponto máximo de ebulição. É significativo que Bin Laden tenha feito a primeira admissão declarada da responsabilidade pelo 11 de Setembro pouco depois da reconquista israelense de cidades palestinas, no primeiro semestre de 2002. A escolha indica que ele quis insinuar que a destruição sangrenta do campo de refugiados de Jenin representava uma espécie de justifi- cativa para as atrocidades da Al Qaeda.

Manipulada com cinismo ou não, a tragédia palestina claramente ajudou a criar um clima no mundo muçulmano para o ataque ao principal suporte de Israel, os Estados Unidos. Esse clima desmoronou diante das evidências dos excessos dos jihadistas, e principalmente em reação à incrível quantidade de sangue muçulmano que eles derramaram. Mas é reconstruído pelos equívocos americanos. É de se imaginar qual seria hoje a força da jihad global se o maior inimigo dela não tivesse sido maculado por Guantánamo, Abu Ghraib e outros desvarios, ou pela associação com as piores políticas de Israel. Como todos os escritores abordados aqui concordam, de uma maneira ou de outra, o projeto jihadista está mesmo provavelmente fadado ao fracasso.

Devji, por exemplo, acredita que o grande impacto do jihadismo não estará nos seus atos de violência, mas na ameaça que ele representou às estruturas tradicionais da autoridade muçulmana.

Numa linha semelhante, Gilles Kepel afirma que subliminarmente a todas as racionalizações dos jihadistas está o temor histórico que os muçulmanos sentem pela fitna, uma palavra que significa cisma interno, revolta e caos. O papel tradicional dos sábios religiosos era garantir proteção contra essa ameaça. Mas, ao se arrogar o direito de assumir a ofensiva contra o Ocidente que causa a fitna, os jihadistas acabaram infligindo a fitna a suas próprias sociedades.

Talvez esse caos revele-se produtivo no longo prazo. Por enquanto, há vários modos para lidar com a violência jihadista. Um deles é fazer um esforço para cuidar dos problemas geopolíticos que agitam os muçulmanos, entre eles a questão palestina. Outro é provar a força e o sucesso dos valores seculares e liberais incentivando a inclusão de tendências islamitas tolerantes. E há a abordagem mais óbvia, clássica, a de que uma política laboriosa funciona. Nas palavras humildes de Jonathan Randal, "se há uma resposta para um fenômeno tão resistente quanto o terrorismo, suspeito que ela esteja num trabalho de abelhinha, aquele acúmulo de detalhes demorado, paciente e chato, mas profissional".