quarta-feira, março 02, 2005

Poderes ocultos por toda parte

Teorias conspiratórias oferecem explicações sedutoramente simples para um mundo caótico. Mas cuidado! Não acredite facilmente.


O presidente John F. Kennedy não foi assassinado por Lee Harvey Oswald; na verdade, ele foi morto pela CIA por se opor às operações clandestinas da agência de inteligência. A princesa Diana não morreu num acidente de carro enquanto o motorista fugia de paparazzi; a família real teve participação na morte porque não queria que Diana herdasse poder ou riqueza. E quando você vê aviões de caça a grandes altitudes deixando trilhas de condensação por onde passam, não é apenas o efeito físico da emissão de calor no ar frio e úmido; os aviões estão pulverizando gotículas - trilhas químicas, ou chemtrails - sobre as pessoas, às vezes testando agentes infecciosos ou venenos, ou, quem sabe, vacinas.

Teorias conspiratórias têm florescido por séculos, e a internet acelerou a sua disseminação. Pessoas que acreditam em rastros químicos criaram diversos sites na web para alertar as outras sobre esse perigo. A BBC (British Broadcasting Corporation) localizou mais de 36 mil sites apresentando mitos e lendas sobre o acidente fatal de Lady Di em 1997.

Por que as pessoas vão tão longe para tentar provar que poderes ocultos estão por trás de tudo, desde a disseminação de doenças até a morte de celebridades? E aqueles que acreditam nessas teorias apenas têm imaginação fértil, ou há algo mais se passando em suas cabeças? A maioria dos indivíduos que se deleitam com histórias de conspiração é saudável, mesmo quando se aproxima dos limites do delírio.

Psiquiatras definem como delirante alguém que tenha uma falsa visão da realidade e se aferre a ela com convicção, a despeito de argumentos e indícios claros contra essa percepção. Sua certeza resoluta pode assumir diversas formas. Nos delírios relacionais, um indivíduo vê todas as pessoas, os acontecimentos e objetos à sua volta como ligados a ele.

Acredita que a vitrine da loja da esquina está lhe enviando mensagens, ou que determinado artigo de jornal dirige-se exclusivamente a ele. Já nos casos de delírios persecutórios, o indivíduo pensa que os outros o estão observando, ouvindo suas conversas ou seguindo seus passos.

LIMITES DA SANIDADE

Seja qual for o delírio, o terapeuta em geral não consegue dizer se uma idéia aparentemente maluca tem ou não base na realidade - e, em certo sentido, não é isso o que importa. O diagnóstico de delírio é baseado, sobretudo, no modo como o paciente apresenta a idéia e sua certeza absoluta sobre os fatos que dela decorrerão. Mesmo assim, os terapeutas devem ser cautelosos. Afinal, é possível que uma paciente esteja realmente sendo assediada no trabalho, traída pelo marido ou enganada por seu sócio.

Os terapeutas também devem tomar cuidado para não confundir fatos com delírios, uma armadilha conhecida como o efeito Martha Mitchell. Martha era esposa de John Mitchell, ex-procurador-geral dos Estados Unidos. Em outubro de 1972 ele foi acusado de ter dado a ordem para invadir o comitê central da campanha dos democratas, no Watergate Hotel, em Washington. Martha diversas vezes afirmou à imprensa que seu marido estava sendo usado como bode expiatório para proteger o verdadeiro culpado - o presidente Richard M. Nixon. A Casa Branca espalhou boatos sobre Martha, dizendo que ela sofria de alcoolismo e insinuando que suas declarações não passavam de delírios. Quando o escândalo finalmente foi esclarecido, as afirmações de Martha foram comprovadas e ficou demonstrado que ela era completamente sã.

O enorme número e o sucesso de livros e programas de televisão sobre "o que de fato aconteceu" em Watergate ou "quem realmente matou" o presidente JFK atestam que as pessoas são facilmente seduzidas por teorias conspiratórias. Mas, por quê? Uma resposta inicial é que essas teorias oferecem uma mensagem simples. Não importa o acontecimento, há uma única força - em geral malévola - por trás dele. Muitos de nós tendem a simplificar exageradamente questões complicadas, reduzindo-as a uma causa única sempre que possível. Tal procedimento organiza o caos, torna inteligível um mundo complexo. E, uma vez que tenham acreditado entender como algo funciona, se aferram a essa crença.

Crer em um plano secreto supremo elaborado por uma poderosa organização estabelece relações de causa e efeito simples que se desenrolam numa cadeia linear de acontecimentos. O acaso e a ambigüidade não desempenham nenhum papel, algo reconfortante até mesmo diante de forças sinistras.

Conspirações têm grande chance de se tornar populares quando alimentam preconceitos ou superstições já existentes, e a crença na conspiração reforça essas posições. Nesse círculo vicioso, toda e qualquer conexão com a realidade é rapidamente perdida. E, se a teoria confirma velhas suspeitas aceitas por muitos, o número de adeptos aumentará.

RAÍZES DA DESCONFIANÇA

Um bom exemplo, apesar de hediondo, é a acusação, feita em diversos momentos desde a Idade Média, de que judeus sacrificariam crianças cristãs em rituais secretos. Esse mito foi reforçado pelo monge beneditino britânico Thomas de Monmouth. Em seu livro Vida e milagres de São Guilherme de Norwich, publicado em 1713, Thomas contava a morte de um menino de 12 anos. Valendo-se de indícios inconsistentes, ele afirmava que o garoto fora vítima de um assassinato ritual praticado por judeus.

Esse libelo infamante foi reiteradamente martelado até o século XIX.

Escritos anti-semitas e documentos falsificados, tais como O judeu do Talmude, publicado pelo teólogo August Rohling em 1871, conferiram um ar pseudocientífico às lendas. Essas e outras falsas acusações do mesmo tipo ajudaram a alimentar o anti-semitismo do século XX e até os dias atuais.

As pessoas parecem particularmente dispostas a aceitar histórias extravagantes como essas se elas brotam de uma desconfiança generalizada no outro. Em 1994, Ted Goertzel, da Universidade Rutgers, EUA, realizou um estudo em que os entrevistados liam dez histórias conspiratórias e depois eram questionados sobre quais eles julgavam verdadeiras. A maioria respondeu que pelo menos uma delas estava correta, e muitos aceitaram várias como sendo verídicas. Por exemplo, metade dos participantes acreditava que os japoneses conspiravam para destruir a economia americana. No entanto, ainda mais interessante foi a descoberta de Goertzel de que pessoas descontentes com a vida tinham maior propensão a acreditar em teorias conspiratórias. Os entrevistados mais crédulos também tendiam a demonstrar maior desconfiança em relação a políticos e servidores públicos.

Auto-identificação racial também pode influir. Grande parte dos afro-americanos participantes do estudo acreditava que o governo americano havia criado o vírus da Aids em laboratórios secretos e infectado propositadamente pessoas negras. Talvez essa crença tenha origem em algo desconhecido conscientemente. Em 1932, na cidade de Tuskegee, no Alabama, pesquisadores do precursor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças deram início a um tristemente célebre estudo envolvendo quase 400 homens afro-americanos infectados com sífilis.

Em vez de dar o diagnóstico correto, os pesquisadores simplesmente informaram aos homens que exames médicos indicavam que eles tinham "sangue ruim" - um termo usado naquela época para uma série de problemas, da anemia à síndrome da fadiga crônica. Os pesquisadores ofereceram a esses homens pobres e desesperados tratamento gratuito e até mesmo se ofereceram para arcar com os custos de seus funerais, caso necessário. Na verdade, os médicos queriam estudar o progresso da sífilis quando não tratada - até seu ponto final, a morte. Mesmo após a penicilina se tornar largamente difundida, em 1947 - medicamento que poderia ter curado esses pacientes -, o estudo continuou. Muitos participantes morreram, mas não sem antes contaminar outras pessoas.
Esses homens foram tratados como ratos de laboratório.
Surpreendentemente, o projeto continuou até 1972, quando a jornalista Jean Heller descobriu o plano secreto. Três meses depois o governo federal declarou que o estudo era antiético e o interrompeu. Um tribunal concedeu indenização de US$ 9 milhões aos participantes e suas famílias, além de tratamento médico gratuito. No entanto, nenhum dos pesquisadores ou administradores envolvidos foi responsabilizado criminalmente. Somente em maio de 1997 o presidente Bill Clinton pediu desculpas oficialmente aos oito sobreviventes.

Essa história, e outras semelhantes, pode muito bem ter alimentado a idéia, largamente aceita entre os afro-americanos entrevistados por Goertzel, de que o governo americano conspirou para disseminar a Aids entre membros de sua raça. A ocultação de fatos reais também pode ser o motivo pelo qual muitos negros ainda desconfiam dos atuais esforços do Centro de Controle e Prevenção de Doenças para prevenir e tratar a síndrome nacionalmente.

Uma teoria conspiratória não precisa, no entanto, ter suas raízes em um fato real. Incidentes completamente inventados bastam, desde que sejam verossímeis. Na política, teorias conspiratórias falsas são freqüentemente usadas para difamar um adversário. Ao longo da história, governantes têm apresentado seus oponentes como conspiradores responsáveis por toda sorte de revés. No século I d.C., o imperador romano Nero espalhou o boato de que os cristãos atea-ram fogo em Roma. Na Idade Média, massacres organizados de judeus foram desencadeados quando líderes russos fizeram acusações bizarras, e extremamente imaginosas, contra eles.

Um dos exemplos mais bem-sucedidos, e também dos mais perversos, são os Protocolos dos sábios de Sião. Esse livro, aparentemente publicado pela polícia secreta do czar russo Nicolau II, em 1897, insinuava uma conspiração de judeus e maçons para conquistar o mundo. O documento forjado acusava ambos os grupos de serem responsáveis pela Revolução Francesa, bem como pela ascensão do socialismo e do anarquismo - em suma, por tudo aquilo que os monarquistas e nacionalistas de fins do século XIX e começo do século XX temiam. Os Protocolos exerceram enorme influência sobre a opinião pública de diversos países.

Desde o início questionou-se a autenticidade dos Protocolos, mas isso em nada afetou sua disseminação. Paradoxalmente, os argumentos contra a veracidade do livro apenas reforçaram a crença na existência de uma conspiração judaica internacional dedicada a desacreditá-lo. O texto apareceu e reapareceu seguidamente sob novos disfarces, na maioria das vezes acompanhado por outros tratados anti-semitas. Entre outras coisas, o texto serviu como importante fonte da ideologia nazista, tendo sido adotado por Adolf Hitler. Chegou a ser incluído na lista de leituras obrigatórias das escolas alemãs, a partir de 1935. Atualmente, os Protocolos são largamente difundidos em países árabes, envenenando a mente de seus leitores.

MACARTHISMO

Teorias conspiratórias oferecem a manipuladores políticos justificativas para usar todo e qualquer meio possível para destruir seus rivais. O famigerado Sub-comitê Permanente de Investigações do Senado dos Estados Unidos, presidido pelo senador Joseph McCarthy no início dos anos 50, procurava comunistas escondidos por todo o país - e, claro, os encontrou. Uma denúncia, assim como a recusa de alguém em apontar outros supostos comunistas, era suficiente para "provar" que a pessoa era comunista. Quase 10 mil pessoas perderam seus empregos em razão de acusações falsas ou obtidas mediante coação. Assim, os partidários de uma grande conspiração comunista viram suas idéias confirmadas por esses resultados.

Ditadores e tiranos, para se rodearem de um exército de seguidores que os sirva cegamente, inventam constantemente novos complôs contra seus regimes. E pelo fato de seus supostos oponentes agirem às escondidas, eles podem ser qualquer um ou estar em qualquer lugar - o que torna necessário estar sempre alerta. É desse modo que autocratas justificam órgãos de repressão. Além disso, como os regimes ditatoriais, aos olhos de seus simpatizantes, estão sempre certos, qualquer problema que surja é sempre atribuído a conspiradores e não a erros próprios.

Até mesmo sociedades democráticas inventam ou são seduzidas por histórias fantasiosas. Muitos escritores e editores publicaram, depois dos ataques de 11 de setembro, "dossiês" culpando os mais diversos grupos.

Alguns até afirmaram que os ataques foram realizados pela CIA. Os defensores dessas teorias colocavam em dúvida a versão oficial dos fatos, propondo explicações apoiadas em "especialistas" anônimos da internet como suas fontes. Outros chegaram a afirmar que agentes secretos americanos fizeram colidir, por meio de controle remoto, os dois aviões contra o World Trade Center. E, uma vez que agentes sabiam que o impacto talvez não fosse suficiente para os prédios desabarem, eles também teriam explodido suas estruturas no momento do choque. Por quê? Para que a superpotência pudesse usar a tragédia para justificar suas operações militares no Oriente Médio. As operações seriam, por si só, provas mais do que suficientes da armação.

Essa lógica - uma inversão da causa e efeito - é típica das teorias conspiratórias. Fatos atuais - como a "guerra ao terrorismo", em grande parte uma reação ao ataque ao World Trade Center - são usados como indícios para provar que tais acontecimentos foram planejados muito antes. Teóricos da conspiração nem imaginam que a história pudesse ter se desenrolado de outro modo.

De dentro de seus casulos de motivos pressupostos e maquinações, os autores de teorias da conspiração também criam suas próprias defesas.

Suas reputações dependem da habilidade para defender suas idéias contra todos que as contestam. Uma tática clássica é alegar compreensão absoluta das coisas. Em sociedades antigas, compreensão absoluta advinha de oráculos e presságios. O poder dos sacerdotes também se fundava na capacidade de entender sinais. Apenas uns poucos estavam aptos a ler sinais mágicos ou interpretar as entranhas de animais sacrificados e, deste modo, explicar a vontade dos deuses.

A predisposição da sociedade para colocar em pedestais aqueles que são capazes de interpretar esse conhecimento oculto persiste ainda hoje.
Sherlock Holmes, avô dos modernos detetives, solucionava crimes com base em um punhado de pistas. Médicos diagnosticam enfermidades internas baseados em sinais exteriores da doença. Astrônomos podem explicar tanto o começo como o fim do Universo pela simples observação do céu à noite.

Pelo fato de que conspirações, por definição, acontecem às sombras, apenas os iniciados podem compreendê-las. Isso eleva os teóricos da conspiração à condição de profetas e satisfaz seus egos. E eles podem sempre contar com apoio, pois suas interpretações alimentam as necessidades ou preconceitos de muita gente.

Teorias da conspiração dizem muito a respeito dos inimigos imaginários, medos e preconceitos daqueles que as criam, e por isso podem ser úteis como documentos da história contemporânea. No mundo atual, que tantos consideram demasiado complexo, explicações simples são atraentes. Por isso, é muito provável que os primeiros anos do século XXI experimentem um aumento vertiginoso da crença em conspirações.

original: http://www2.uol.com.br/vivermente/conteudo/materia/materia_19.html

Bill Gates cavaleiro na Inglaterra?

O fundador e presidente da Microsoft, Bill Gates, será nomeado cavaleiro honorário pela rainha Elizabeth na quarta-feira. O título britânico será concedido por sua contribuição às atividades das empresas de informática.

Gates, o homem mais rico do mundo, receberá o reconhecimento da rainha no Palácio de Buckingham. Em meio ao luxo e pompa do palácio, Gates se curvará perante a rainha, que vai tocar seu ombro com uma espada.

Somente cidadãos britânicos podem ter o direito de colocar diante de seus nomes o título "Sir". A honra não se estende a outras nacionalidades. No ano passado, rumores indicaram que Gates seria nomeado cavaleiro. O secretário britânico de Relações Exteriores, Jack Straw, chegou a afirmar que Gates era "um dos líderes empresariais mais importantes de sua era".

"A tecnologia da Microsoft transformou as práticas empresariais e sua companhia vem tendo um impacto profundo na economia britânica", salientou Straw.

original: http://informatica.terra.com.br/interna/0,,OI480400-EI553,00.html

Você é comunista?

"Bill Gates e outros comunistas
por Richard Stallman

Quando o site CNET News.com perguntou à Bill Gates sobre patentes de software, ele mudou de assunto e falou sobre "propriedade intelectual" misturando tudo com várias outras prerrogativas legais.

Então ele disse que todos que não derem suporte para a legislação sobre patentes é um comunista. Já que não sou comunista mas tenho criticado as patentes de software, fiquei pensando que esse tipo de comentário deve referir-se à mim.

Quando alguém usa o termo "propriedade intelectual" normalmente ou está confuso sobre o assunto ou está tentando confundir você. Esse termo é usado para colocar no mesmo pacote as leis de copyright (direitos autorais), leis de patentes e várias outras legislações, cujos dispositivos e efeitos são totalmente diferentes uns dos outros. Por que o Sr. Gates faz isso, misturando todos esses conceitos? Vamos analisar as diferenças que ele escolheu esconder.

Desenvolvedores de software não estão lutando contra as leis de copyright (direitos autorais e direitos de cópia), porque o desenvolvedor de um programa mantém o copyright do programa; desde que os programadores tenham escrito o código, ninguém mais possuirá o copyright para esse código. Não há perigo de que terceiros tenham um caso legal válido de quebra de direitos de copyright contra os programadores de um código.

Patentes são uma história diferente. Patentes de Software não cobrem o código do programa ou o programa pronto; cobrem idéias (métodos, técnicas, caracteristicas, algoritmos, etc.). Desenvolver um grande programa envolve combinar milhares de idéias, e mesmo que algumas delas sejam completamente novas, o resto precisa vir de outros softwares que o desenvolvedor já tenha visto. Se cada uma dessas idéias pudesse ser patenteada por alguém, cada grande programa iria infringir centenas de patentes. Desenvolver um grande programa significaria estar vulnerável à centenas de potenciais processos judiciais. Patentes de software são ameaças aos desenvolvedores de software, e aos usuários, que também podem ser processados.

Alguns poucos afortunados desenvolvedores de software estariam livres de todo o perigo. Seriam as megacorporações que, normalmente, possuem milhares de patentes cada e licenciamento cruzado uma com a outra. Isto dá à elas uma vantagem sobre rivais menores que é irreversível. Esta é a razão pela qual geralmente são as megacorporações que fazem lobby por patentes de software.

A Microsoft de hoje é uma megacorporação com milhares de patentes. Microsoft disse em juízo que o maior competidor do Windows é "Linux", referindo-se ao sistema operacional e software livre chamado GNU/Linux. Documentos internos da Microsoft que vazaram para o público dizem que a Microsoft visa usar as patentes de software para anular o desenvolvimento do GNU/Linux.

Quando o Sr. Gates começou a criar sua solução para o problema do spam, eu suspeitei que tratava-se de um plano de usar as patentes de software para assumir o controle da Internet. De fato, em 2004, a Microsoft pediu à IETF (Internet Engineering Task Force ou Força Tarefa de Engenharia da Internet) para aprovar um protocolo de e-mail que a Microsoft tentava patentear. A política de licenciamento para o protocolo foi criada para proibir inteiramente o software livre. Nenhum programa que suportasse esse protocolo de e-mail poderia ser lançado como software livre, sob a GNU GPL (Licença Geral Pública do GNU), a MPL (Licença pública Mozilla), a licença Apache, quaisquer licenças BSD, ou qualquer outra licença livre.

A IETF rejeitou o protocolo da Microsoft, mas a Microsoft afirmou que tentaria convencer grandes provedores de internet a usar o protocolo de qualquer modo. Graças ao Sr. Gates agora sabemos que uma internet aberta com protocolos que qualquer um possa implementar é comunismo; e que esta foi desenvolvida pelo mais famoso agente comunista que há, o departamento de defesa dos Estados Unidos da América.

Com a participação de mercado que a Microsoft tem, ela pode impor sua escolha de sistema de programação ao mercado como um padrão de-facto. A Microsoft já patenteou alguns métodos de implementação usados em .Net, aumentando a preocupação de que milhões de usuários foram inseridos em um monopólio que o próprio governo dos Estados Unidos a América já tentou combater.

Mas capitalismo significa monopólio; ao menos a visão de capitalismo de Gates significa. Pessoas que acham que qualquer um deve estar livre para programar, livre para escrever softwares complexos, são comunistas como o Sr. Gates já colocou. Mas estes comunistas já infiltrama-se até mesmo na Microsoft. Aqui está o que Bill Gates disse à seus empregados na Microsoft em 1991:

'Se as pessoas tivessem entendimento sobre como patentes seriam concedidas quando a maioria das idéias de hoje foram inventadas e tivessem registrado-as, a industria de hoje estaria completamente paralisada...No futuro uma pequena empresa de informática que não possua patentes próprias será forçada a pagar qualquer preço que as gigantes escolham impor.'

O segredo do Sr. Gates foi agora revelado; ele também era um "comunista"; ele também reconheceu que patentes de software eram danosas, até que a Microsoft tornou-se uma das gigantes. Agora a Microsoft pretende usar as patentes de software para impor qualquer preço que escolha à você e à mim. E se objetarmos contra isso o Sr. Gates irá nos chamar de "comunistas"

Se você não tiver medo de ser assim rotulado, visite ffii.org (Foundation for a Free Information Infratructure ou Fundação para uma Estrutura de Informação Livre), e junte-se à luta contra as patentes de software na Europa. Nós já persuadimos o Parlamento Europeu uma vez - até mesmo alguns Primeiros Ministros de direita são "comunistas" ao que parece - e com sua ajuda vamos fazê-lo novamente.

Richar Stallman é presidente da Free Software Foundation e chefe do projeto GNU."

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Tecnologia usa corpo humano como rede de dados

A Nippon Telegraph and Telephone (NTT) desenvolveu uma tecnologia que utiliza o corpo humano como rede de alta velocidade para promover a comunicação entre aparelhos eletrônicos e usuários.

Segundo comunicado divulgado nesta segunda-feira (21/02), pesquisadores do Laboratório de Integração de Micro-sistemas da NTT criaram transceivers - modems capazes de enviar informações sem fio - aptos para enviar e receber dados por campos elétricos na superíficie do corpo.

A tecnologia leva o nome de Human Area Networks (HANs). Tais campos passam a atuar como transmissores de dados com velocidades de até 10 megabits por segundo entre os transceivers mantidos perto da superfície do corpo.

A companhia acredita que a tecnologia pode ser desenvolvida como alternativa para Bluetooth ou rede sem fio WLAN para curtas distâncias, segundo Toshiaki Asahi, pesquisador da empresa.

"Se o desenvolvimento for bem o suficiente, esperamos lançar os sistemas HAN em 2006", destacou. Ainda de acordo com a NTT, as aplicações para HANs incluem funções de segurança e identificação.

Os transceivers, chamados RedTacton, funcionam utilizando um sensor óptico que interpreta as flutuações no campo elétrico do corpo humano por meio do uso de um laser em miniatura e de um cristal acoplado. O laser mede as flutuações e como estas afetam o cristal.

Os campos elétricos existem em torno de vários objetos, incluindo metais, plásticos, vidro, cerâmicas e líquidos. Uma pessoa equipada com um sensor pode trocar dados com outras pessoas que também carregam um sensor por meio de um aperto de mãos.

A NTT começará a testar os campos em abril, em um processo que deverá durar até setembro. A companhia também trabalhará com grandes empresas de eletrônicos e arquitetos.

original: http://idgnow.uol.com.br/AdPortalv5/TelecomInterna.aspx?GUID=DDF8C516-29F6-4446-BCC5-7DFF61BEFDA3&ChannelID=2000016

Câmera montada em óculos pode restaurar visão

Uma pequena câmera montada em um óculos e conectada ao nervo óptico pode restaurar a visão de milhares de pessoas que sofrerem de deterioração da retina, afirmaram especialistas europeus na segunda-feira.

O avanço médico tem o potencial de ajudar 300 mil europeus cuja visão foi enfraquecida conforme a fina camada de tecido celular que envolve o olho e processa as imagens se deteriora, afirmou o professor belga Claude Veraart, em conferência.

"Implantamos o dispositivo em dois pacientes até agora", disse Veraart, da Universidade Católica de Louvain-la-Neuve, próxima a Bruxelas.

Uma câmera montada nos óculos envia imagens para um aparelhos eletrônico implantado atrás do olho e estimula o nervo óptico que passa a informação visual ao cérebro.

A tecnologia pode ajudar também pessoas com doenças na retina e outras degenerações, que podem levar à perda dos detalhes das imagens, uma das principais causas da deficiência visual nos Estados Unidos.

Baseado no preço de aparelhos auriculares conhecidos como Cochlear, que também envolve a inserção de componentes na cabeça, a nova tecnologia vai custar cerca de 20 mil euros, afirmou Veraart.

Cinquenta equipes de cientistas ao redor do mundo trabalham em tecnologia similar, mas o projeto belga, que coordena um esforço pan-europeu de pesquisadores na França e Alemanha, obteve os melhores resultados, acrescentou.

A Comissária da Sociedade da Informação, Viviane Reding, afirmou que o dispositivo pode começar a ser vendido no mercado entre 2008 e 2010.

A Comissão Européia, que vai gastar 3,6 bilhões de euros em projetos de tecnologia da informação e comunicação entre 2002 e 2006, garantiu 2,79 milhões de euros em pesquisa de tratamento de deficiência visual.

original: http://noticias.uol.com.br/ultnot/2005/02/21/ult27u47462.jhtm

Impacto social dos games

Aqueles que se sentaram pela última vez diante de um televisor para jogar "Pac Man", o famoso cartucho do Atari, vão se surpreender com o panorama apresentado, 20 anos depois, em "A Vida em Videogame", que o canal da TV paga GNT exibe nesta quinta, às 21h30.

Mais que uma indústria bilionária, que já ultrapassou em vendas as bilheterias do cinema de Hollywood, os jogos eletrônicos se tornaram a principal porta de entrada para a realidade virtual. Jogos como "Fables" (Fábulas), retratados no programa, extrapolam a noção de entretenimento preguiçoso e exigem dos participantes não só habilidade técnica, mas moral e psicológica.

Uma nova realidade também começa a ser desenhada quando jogadores do mundo todo se enfrentam nas chamadas olimpíadas de games, diante de um público digno de final de Copa do Mundo. Na Coréia do Sul, os atletas de games são disputados por patrocinadores e seus contratos milionários e distribuem autógrafos como astros do esporte ou da música pop.
Mas não é apenas nisso que "A Vida em Videogame" está interessado. Mais da metade do documentário dedica-se aos possíveis efeitos negativos dos jogos eletrônicos, em especial, no papel que teve o RPG on-line "EverQuest" no suicídio do americano Shawn Woolley, que se matou três anos atrás, aos 21, diante da tela do computador. A mãe do rapaz acusa os criadores do jogo de terem induzido seu filho ao "vício" -na Coréia do Sul, cenas impressionantes mostram uma mulher resgatando, a tapas, em uma lan-house, o marido que havia dias não voltava para casa.

Em contraste ao tom sensacionalista que o programa vai tomando, um psicólogo pondera: os videogames, como a televisão, representam uma fuga da realidade. A pergunta a ser feita é por que, cada vez mais, as pessoas não estão querendo enfrentar a realidade.


A VIDA EM VIDEOGAME. Quando: quinta-feira, às 21h30, no GNT.

original: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2202200514.htm

Brasil se opõe a projeto de países ricos para criar patentes globais

As relações entre o Brasil e a direção da Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI) sofreram um novo baque, envolvendo a negociação de um tratado de patente global que Brasília rejeita. Negociadores acham que o país foi atraído para uma situação embarçosa ao participar de consulta informal realizada pelo diretor-geral da OMPI, Kamil Idriss, na semana passada com cerca de 20 países em Casablanca.

O representante brasileiro, Roberto Jaguaribe, presidente do Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI), foi o único que se recusou a assinar um plano de trabalho aprovado no encontro e que, na prática, pretende acelerar as negociações do tratado de harmonização de leis de patente no mundo.

Como os aliados brasileiros contra essa negociação não foram convidados, o resultado deixou a impressão de que o Brasil ficou isolado na cena internacional. Entre as nações em desenvolvimento presentes, México e Marrocos tem acordos comerciais com os EUA e defendem o tratado.

Entre os emergentes, também participaram China, Chile, Malásia, Rússia, além dos maiores interessados: Estados Unidos, Grã-Bretanha, China, França, Alemanha, Itália e Japão. Também estiveram presentes organizações de propriedade intelectual da Europa, Ásia e continente africano. O Brasil lidera a oposição ao tratado por achar que ele pode se tornar um novo instrumento de pressão, inclusive comercial, contra as nações em desenvolvimento.

A criação de patente global faz parte da agenda dos Estados Unidos e outros industrializados. Um pilar desse projeto é o Tratado de Direito Substantivo de Patente, para harmonizar os critérios de concessão de patente. Só que ele vai bem além do Acordo de Trips (propriedade intelectual) da Organização Mundial de Comércio (OMC). Este especifica três critérios para patentear uma invenção: novidade, atividade inventiva e aplicabilidade industrial. Mas não diz como se deve aplicar esses critérios, deixando margem de manobra aos países. Assim, certos países consideram que algumas invenções patenteadas em um país não podem receber proteção local. É o caso de software, patenteado nos EUA, mas não na maioria das outras nações.

Já um tratado de harmonização global de patentes tem outras implicações. Uma patente dada nos EUA teria obrigatoriamente que ser aprovada com base no mesmo critério nos outros países signatários, diz um negociador.

No caso especifico do Brasil, o primeiro impacto seria proibir a atual prática envolvendo as patentes farmacêuticas, que precisam de anuência prévia da Anvisa. Várias disposições da lei de propriedade industrial teriam que ser mudadas. Por exemplo, o país não aceita patentear micro-organismos que ocorram livremente na natureza. Nos EUA, um cientista poder extrair substância de uma planta, submetê-la a processo químico, isolar um componente e patenteá-lo. Mas para vários países isso não é invenção, é sim uma descoberta.

O presidente do INPI, Roberto Jaguaribe, disse ao Valor, que a posição brasileira diverge da proposta de dividir as negociações sobre como harmonizar as formas de considerar e conceder patentes. Alguns países, com destaque para os desenvolvidos, são a favor de uma harmonização que permita a constituição de escritórios únicos que dariam patentes válidas para todos, o que a mídia chama de patente global.

"Nossa leitura, apesar de isto (escritórios únicos) vir a se transformar numa tendência, é de não aceitar esta idéia, pois a harmonização de patentes envolve demandas muito diferenciadas e isto é preciso estar presente no debate, que queremos que seja mais profundo, menos técnico, e que envolva questões outras como, por exemplo, a da biodiversidade".

Para Jaguaribe, a propriedade intelectual não é um fim em si mesma, mas um instrumento que possa propiciar capacitação tecnológica aos países e cada país está num estágio diferente. Há regras comuns, reconhece, de mais de 100 anos. "Hoje existem regras básicas que os membros dos acordos têm que obedecer".

Ele destacou que o Brasil está engajado nesse processo, mas acha que ñao se pode ter uma visão tópica, isolada e separar as coisas. "Os Estados Unidos querem trabalhar em alguns temas muito técnicos, como período de graça, novidade, hiato inventivo, enquanto o Brasil quer tratar de não impedir a capacitação de sua indústria, o acesso do seu povo a medicamentos, incluir na discussão a biodiversidade e o conhecimento tradicional. Temos uma série de demandas". Na sua ótica, patentes não podem ser impeditivas de políticas públicas para alguns setores, como o de saúde.

Para ele, a reunião que ocorreu no Marrocos teve um critério "seletivo", onde predominavam as pessoas que concordavam com a posição de dividir a discussão, deixando as demandas dos países em desenvolvimento para um outro momento. A Índia comandava o processo de debates e portanto estava praticamente fora das discussões, e o México e Chile, também convidados, têm posições diferentes da do Brasil, destacou. Os países que lançaram a agenda para o desenvolvimento em Genebra foram em sua maioria excluídos do encontro, como Argentina, Egito e África do Sul, denunciou. Enquanto lá estavam Alemanha, França, Inglaterra, Itália, Suiça, União Européia e até o escritório europeu de patentes, além dos EUA.

original: http://www.softwarelivre.org/news/3696
Fonte:Valor Econômico 21/2/2005

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

EUA querem barrar proposta brasileira para software livre

Os Estados Unidos pediram para se reunir com o Brasil hoje cedo em Genebra afim de, segundo negociadores, tentar neutralizar a proposta brasileira de propagação do "software livre e aberto" como uma opção para desenvolver tecnologia e indústria nacional.

Washington quer evitar até a circulação da proposta brasileira na atual reunião preparatória para a Cúpula Mundial da Sociedade da Informação (CMSI), informam fontes próximas das negociações. A delegação americana coloca ênfase no respeito de patentes e é composta sobretudo por advogados.

O que está em jogo na preparação é o enorme mercado que pode se abrir com as decisões que chefes de Estado e de governo devem tomar em novembro em Tunis (Tunísia), visando universalizar o acesso à revolução digital e estabelecer um modelo para a governança da internet.

O confronto é profundo entre os Estados Unidos, que concentram as grandes indústrias de informática, e países emergentes encabeçados pelo Brasil, China, Índia e África do Sul.

Todos estão de acordo em universalizar o acesso. A questão é como. Países em desenvolvimento acusam os EUA de só querer vender equipamentos e de fazer respeitar direitos de propriedade intelectual. Já o Brasil e outros países emergentes consideram que a alavanca da sociedade de informação é o compartilhamento do conhecimento, usando o software livre como exemplo.

"Não tenho nenhuma esperança de que (o confronto) será resolvido agora, mas queremos levar os EUA a debater não só uma visão econômica, mas também tecnológica e de desenvolvimento na universalização", afirma o presidente do Serpro, Sérgio Rosa, um dos principais membros da delegação brasileira.

O mais provável, na avaliação de Rosa, é que os EUA acabem aceitando um discurso genérico sobre compartilhamento do conhecimento. E em seguida passem a pressionar na Organização Mundial de Comércio (OMC) pelo patenteamento de softwares, por exemplo, o que o Brasil e a maioria dos outros países não aceita. Na OMC, quem não respeitar as regras é punido com retaliação comercial.

"O software livre não é uma questão ideológica, mas de desenvolvimento, de autonomia", diz Rosa. "A licença de cópias (de software) é muito anti-social."

Na mesma linha, Marcelo Pimenta, da Anatel, nota que apenas 12% dos domicílios no Brasil têm acesso à internet. O potencial é enorme para indústrias de equipamentos e de serviços. E o que o Brasil quer é garantir, dentro dos objetivos das Nações Unidas para reduzir a pobreza, o uso de opções como o software livre para estimular produção local.

Segundo Sérgio Rosa, o Brasil não está sozinho nessa luta. Apesar de certos analistas questionarem até onde vai o apoio da Índia e China, o presidente do Serpro diz que o Brasil tem com esses países uma "aliança estratégica" nessa área. Também a Argentina está apoiando o Brasil. Já o México é o grande complicador na América Latina, por causa de sua relação com o vizinho norte-americano.

original:
http://www.valoronline.com.br/veconomico/?show=index&mat=2859808&edicao=1037&caderno=277&news=1&cod=e62194dc&s=1

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Software Livre: contra e a favor



LIBERDADE OU STALISMO - O ministro Gil é pró software livre, Gates é contra; será que batalha ideológica ganhará cores de Stali e Che?

Marcelo Tas

No Brasil, podemos nos queixar de tudo, menos da monotonia. Depois do futebol, da caipirinha e do carnaval… acredita-se que em breve vamos nos tornar o país do software livre!

Softwares são os programas que fazem o computador funcionar. Software livre, como o próprio nome sugere, é um tipo de programa que não é controlado por uma empresa ou pessoa. É colocado no mundo com os segredos abertos. Pode ser alterado com a mesma falta de cerimônia que um motor de Fusca é remendado seguidamente por brasileiros.

Taí: o Fusca pode ser o primeiro indício de que o brasileiro tem talento para software livre. Em qualquer esquina do País é possível encontrar um mecânico amador, uma espécie de hacker de automóvel tupiniquim, pronto para abrir o motor do bicho e fazê-lo funcionar. Nem que seja por algumas horas.

Mas programar computador é outra história. É coisa para nerds faixa-preta. São seres que encontram prazer em escrever, linha por linha, todos os passos que a máquina deve dar quando apertamos as suas teclas.

Os supernerds vivem num mundo paralelo. São surfistas de hard-disk, subindo e descendo ondas de zeros e uns. Numa entrevista para TV, perguntei a um deles se sobrava tempo para namorar. Respondeu com aquele sorriso tímido e nervoso de nerd que, para ele, programar computador era uma forma de sexo (!?). Ops, se for assim, parece que temos chance.

O entrevistado era Marcelo Tosatti, jovem curitibano que, aos 18 anos, se tornou o mantenedor mundial do Linux kernel 2.4. Traduzindo: o cara é uma espécie de principal guardião do núcleo principal (kernel significa caroço) do Linux, o software livre mais famoso do mundo. Trata-se de um sistema operacional de computador aperfeiçoado continuamente por uma multidão de nerds anônimos, que hoje já assusta o mega nerd Bill Gates.

Como você sabe, Gates fez sua fortuna vendendo um sistema operacional fechado, o Windows. Só ele atualiza e aperfeiçoa o programa. E cobra por isso.

O Brasil é o primeiro país do mundo a adotar software livre como política de governo. Uma tremenda ousadia do presidente Lula. Dois pontas-de-lança atuam nesse jogo pesado que cutuca cachorros-grandes da indústria. Na inspiração conceitual e animação cultural, está o ministro Gilberto Gil. Na linha de frente, chutando a canela dos beques adversários, o sociólogo Sérgio Amadeu, presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), autarquia da Casa Civil da Presidência da República.

Nenhum dos dois é especialista no assunto. Estão longe de serem supernerds. Mas fazem barulho e conquistam a atenção de indivíduos e instituições importantes do mundo digital. Profetas do cyberespaço garantem: se o Brasil implementar o software livre em larga escala, a China vem junto. E boa parte do resto do mundo.

Entendeu agora por que Bill Gates tentou cavar uma reuniãozinha de última hora com Lula no recente Fórum Econômico Mundial, em Davos?

Esta coluna não é devota de nenhum evangelho digital, militância política ou estratégia corporativa. Por isso se encerra colocando duas minhocas na sua cabeça: uma a favor e outra contra o software livre.

Contra: o governo vai tratar o software livre com a doçura revolucionária de Che Guevara: endurecer sin perder la ternura jamás? Ou será que a tendência stalinista de alguns membros do PT vai fazer o software livre virar uma religião, um novo monopólio? Vão criar a Linuxbrás?

É uma sinuca de bico. A força do software livre está na interação e na liberdade criativa das comunidades. Não vai ser fácil evitar que a mão pesada da máquina federal cause um desequilíbrio neste ecossistema de cérebros. Nunca na história o pessoal do software livre se viu diante de uma encomenda tão grande de trabalho. Será que eles seguram o tranco?

A favor: Estima-se que, só em licenças para usar softwares fechados, o governo brasileiro gaste mais de U$ 1 bilhão de dólares por ano. Mais do que com Cultura e Fome Zero juntos. Com tantos problemas para resolver, o Brasil não precisa ajudar Gates a ficar mais rico do que ele já é.

marcelotas@estadao.com.br


original: http://link.estadao.com.br/index.cfm?id_conteudo=2736

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Cientistas estão convictos da existência de ETs

Cálculos sustentam a hipótese de outras civilizações na Via Láctea

Pesquisadores estão mais convictos do que nunca de que os extraterrestres existem --sejam eles micróbios sobrevivendo penosamente em um planeta gelado ou seres inteligentes em um mundo aquático azulado a 5.000 anos-luz da Terra.

"Com certeza devem existir outras estrelas como o nosso Sol, e outros planetas como a Terra", afirmou Geoff Marcy, cientista planetário da Universidade da Califórnia em Berkeley, durante uma conferência sobre ciência planetária que ocorreu na semana passada em Aspen. "A vida primitiva, pelo menos, pode ser comum no universo".

Os caçadores de planetas se congregaram em Aspen para comemorarem a descoberta dos quase 150 planetas "extra-solares" nos últimos dez anos, e também para discutirem novas maneiras de observar o céu.

O Estado do Colorado, na região central dos EUA, se tornou um centro para a pesquisa planetária. A Universidade do Colorado, por exemplo, é uma das principais universidades do país neste campo, e a Ball Aerospace, em Boulder, fabricou a maior parte dos instrumentos usados no Telescópio Espacial Hubble. O valor das pesquisas na área mostrou ser incalculável.

Vários dos planetas descobertos são "Júpiteres quentes" --planetas grandes e gasosos tão próximos às suas estrelas que neles a vida parece ser impossível.

Mas, nos últimos meses, os astrônomos aperfeiçoaram os seus instrumentos para detectarem mundos menores. Eles têm encontrado planetas que estão suficientemente distantes de suas estrelas para possibilitar a existência de água no estado líquido --algo que se acredita ser uma condição para a existência de seres vivos.

Os cientistas dizem que dentro de poucas décadas talvez sejam capazes de detectar os sinais químicos da vida na atmosfera de um planeta semelhante à Terra.

"Escritores de ficção científica previram isso décadas atrás, e agora os cientistas percebem que provavelmente trata-se de uma realidade", disse Bruce Jakosky, cientista planetário da Universidade de Boulder.

"Estamos percebendo que a vida na Terra não parece ser algo de especial", afirmou. Segundo Jakosky, a vida no nosso planeta surgiu tão logo isso se tornou possível, após os meteoritos terem deixado de bombardear furiosamente o jovem planeta.

A principal mensagem obtida após uma década de descobertas de planetas é que há sistemas planetários por toda a Via-Láctea, em pelo menos 3% das estrelas. Existem cerca de 200 bilhões de estrelas na nossa galáxia.

Os cientistas jamais puderam prever as descobertas que seriam feitas nos últimos dez anos. No início de 1995, duas equipes de cientistas anunciaram que havia falhas enormes nas pesquisas planetárias. Vários pesquisadores começaram a concluir que o nosso sistema solar estava sozinho na galáxia, disse Michel Mayor, do Observatório de Genebra.

Mas, a seguir, a sua equipe chegou à conclusão de que a discreta oscilação de uma estrela semelhante ao sol seria causada por um planeta gigante girando velozmente à sua volta.

O grupo de Marcy confirmou o fato: a atração gravitacional era causada por um planeta com metade da massa de Júpiter que orbitava a sua estrela a cada quatro dias.

Desde então, as técnicas utilizadas para detectar tais oscilações foram aperfeiçoadas. Os pesquisadores têm feito experiências por meio de outras técnicas telescópicas.

Mas o próximo grande salto em detecção planetária --a descoberta de outros planetas semelhantes à Terra-- provavelmente não será dado até pelo menos 2007, dizem os cientistas, quando a Nasa planeja lançar o telescópio espacial Kepler.

"Atualmente, os engenheiros da Ball Aerospace estão construindo esse instrumento", diz Harold Reitsema, diretor de programas avançados de ciência espacial da companhia.

A Nasa e a Agência Espacial Européia também começam a planejar outras missões a serem lançadas depois do Kepler; a Missão de Interferometria Espacial, o Descobridor de Planetas Terrestres e o interferômetro espacial de infravermelho Darwin.

Não se sabe o que acontecerá a seguir, embora uma coisa seja certa: não haverá tão cedo visitas tripuladas a esses planetas, já que eles estarão provavelmente a dezenas ou milhares de anos-luz da Terra.

Marcy fez uma série de cálculos que sugerem ser possível a existência de milhares de civilizações avançadas na Via-Láctea.

"Só existe um problema: Onde estão elas? Por que não as vimos?", questiona Marcy.

Os cientistas não encontraram inscrições na Lua, espaçonaves acidentadas em Marte, ou mensagens à deriva no espaço. Marcy sugere que talvez as civilizações simplesmente não durem tempo suficiente para que se comunicarem umas com as outras. E quem sabe a evolução darwiniana, algo que geralmente se acredita ser uma conseqüência inevitável da vida, não produza necessariamente inteligência.

"Talvez existam outras maneiras de os organismos sobreviverem e se tornarem os mais aptos", afirma Marcy.

original: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/outros/2005/02/14/ult586u218.jhtm

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Como seria a vida em naves giratórias

Patrick Barry, Tony Phillips
Da Nasa

Da próxima vez que você for a um playground, tente o seguinte: leve uma bola e um amigo, e comece a andar no gira-gira. Tente jogar a bola para seu amigo por dentro do brinquedo, e veja se ele consegue agarrá-la nas primeiras tentativas.

Ele não conseguirá, com certeza. Na verdade, sua jogada irá bem longe. Você sentirá seu braço estranhamente empurrado para um lado conforme você arremessa, e, durante o "vôo", a bola se desviará um bocado.

Os físicos chamam isso de "efeito Coriolis", e ele acontece em qualquer plataforma giratória. Os furacões giram devido a esse efeito, tendo a Terra como plataforma giratória. Contrariamente à crença popular, as forças Coriolis não controlam a descarga do banheiro -a Terra não gira tão rápido. Mas jogar uma bola em um gira-gira definitivamente é uma experiência Coriolis.

Viagens espaciais são uma experiência Coriolis, também.


Bola jogada em gira-gira tem comportamento estranho. Clique na imagem para ver animação que demonstra o efeito.


Pesquisadores sabem há tempos que naves rotatórias como um gira-gira podem resolver um monte de problemas: na falta de gravidade, os ossos e músculos dos astronautas se enfraquem. É difícil comer e beber, e mesmo usar o banheiro. Dentro uma nave giratória, por outro lado, haveria uma gravidade artificial (devido às forças centrípedas) que manteria os corpos fortes e tornaria a vida cotidiana mais fácil.

O problema é que naves rotatórias também viriam com um forte efeito Coriolis. Objetos jogados mudariam de direção. Tentar chegar a um botão seria complicado, porque o dedo pousaria no local errado. Será que os astronautas se adaptariam a isso? E, caso sim, eles se adaptariam bem o suficiente para viver bem no arriscado ambiente espacial?

Isto é o que os pesquisadores James Lackner e Paul DiZio estão tentando descobrir. Com o apoio do Centro de Pesquisa Física e Biológica da Nasa, esses dois cientistas estão fazendo uma séria de experimentos com pessoas em câmeras rotatórias para entender o quão bem esses astronautas deveriam se ajustar à vida a bordo de naves assim. Eles também esperam encontrar técnicas de treinamento que possam ajudar a facilitar a transição de estados rotatórios para não-rotários, e vice-versa.


Concepção artística de uma nave rotatória. Clique para ver uma animação.

"Experiências feitas na década de 60 mostraram que as pessoas não se adaptam bem em rotação", diz Lackner, professor de Fisiologia. "Mas naqueles experimentos, os sujeitos não tinham objetivos bem definidos para seus movimentos. Descobrimos que quando um objetivo é dado, as pessoas se adaptam rapidamente."

Definidas ações (tais como atingir um certo alvo ou botão), as pessoas em seu estudo aprenderam a se mover de maneira correta depois de apenas 10 ou 20 tentativas. Um ajuste tão rápido surpreendeu os pesquisadores.

"Supomos que, quando um objetivo está presente", diz DiZio, professor-associado de Psicologia, "o cérebro dita o movimento desejado aos músculos muito precisamente. Desvios desse movimento são detectados mais prontamente pelo sensoreamento do cérebro."

Por que as pessoas têm essa habilidade natural de adaptação à rotação?

ossos corpos e cérebros devem ter evoluído, de certa forma, de acordo com o efeito Coriolis. Toda vez que você se vira e tenta atingir algo simultaneamente, você teve uma breve experiência Coriolis. Girando em uma cadeira de escritório. Jogando basquete. Rodando para descobrir o que fez aquele estranho barulho atrás de você. Em cada caso, seu cérebro faz ajustes em tempo real.


Uma sala rotatória usada por Lackner e DiZio em seus experimentos

Outras descobertas surpreenderam os pesquisadores, também. Por exemplo, depois de rodar por um instante, pessoas em seu estudo não mais percebiam o efeito Coriolis. O desvio de seus braços e pernas parecia desaparecer. Seus cérebros compensavam isso, então suas mentes não mais tomavam consciência do fenômeno.

Ainda mais estranho, quando as pessoas voltavam a um ambiente não-giratório, elas sentiam uma força Coriolis no sentido contrário. "É apenas um truque da mente", diz DiZio. Depois de outras 10 ou 20 tentativas de movimento em direção a um alvo, os cérebros deles se reajustam, e o efeito fantasma vai embora.

DiZio e Lackner descobriram que as pessoas podem se adaptar à velocidades rotacionais tão velozes quanto 25 rpm. Isso é tão rápido quanto as pessoas viram seus corpos durante o dia-a-dia. Para comparação, uma nave rotatória giraria muito mais lentamente, talvez 10 rpm, dependendo do tamanho e do design da nave.

Para exercer mais controle sobre as condições de seu experimento, os pesquisadores tentaram algo novo: simular o efeito Coriolis com um braço robótico. Pessoas sentadas tentariam fazer movimentos certos com seu braço enquanto o braço robótico gentilmente empurra seu pulso de modo a imitar o efeito Coriolis.

A vantagem desse modelo é que o braço robótico pode ser reprogramado para empurrar de maneiras diferentes, o que permite testar como as pessoas reagem em condições diferentes. Usando o braço, a dupla de pesquisadore descobriram que as pessoas podem se adaptar a uma pequena e variável força mesmo quano está mascarada por uma outra, maior e mais constante. Então, por exemplo, os astronautas poderiam se adaptar a um efeito Coriolis apesar de uma força constante de fundo, tal como um empurrão constante dos propulsores da nave.

Muitas questões permanecem sem resposta. Será que os resultados baseados em movimentos do braço se aplicam ao corpo todo? Carregar ferramentas pesadas faz alguma diferença? Depois de se adaptar, uma pessoa pode se readaptar mais facilmente? Qual a melhor maneira de treinar astronautas para a vida em uma casa que gira?

Lackner e DiZio planejam descobrir essas questões e mais à medida que a pesquisa continue nos próximos meses.

original: http://noticias.uol.com.br/inovacao/ultimas/ult762u2067.jhtm

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Pare o Mundo que eu Quero Descer

Tudo começou com o anúncio, no final do ano passado, da descontinuidade da tecnologia CDPD da Lucent, que era muito utilizada por algumas operadoras de telefonia móvel para prestar serviços de conectividade a polícias e outros serviços públicos (ver CDPD Transistion) e com a evolução recente da Tecnologia Mesh (Malha) (ver Wireless Mesh Networking).

O pessoal concluiu que era impossível - por questões de custos elevados - substituir as redes CDPD pelas tradicionais redes das famílias GSM e CDMA e partiram para a tecnologia Wi-Fi combinada com Mesh.

Agora como ficam os nossos amigos das operadoras de telefonia móvel no Brasil que insistem em dizer que Wi-Fi não é negócio para eles? Este é mais um nicho que eles não estão sabendo explorar.

Em todo o mundo, a tecnologia Wi-Fi virou coqueluche. Todos querem ter redes sem fio em suas cidades e já tem até gente falando em conectar o país inteiro.

Na prática, uma Cidade Wireless serviria para:

Pagar um ticket de estacionamento utilizando um Smartphone;

Solicitar mercadorias e serviços em um shopping;

Permanecer mais tempo em uma cidade aonde é possível pagar serviços e mercadorias utilizando dispositivos móveis;

Acessar informações e serviços pelos handhelds;

E em futuro próximo, as pessoas poderiam levar vantagem da tecnologia de Seamless Handoff. A Wi-Fi Alliance já está apostando nisto: Wi-Fi Alliance targets Wi-Fi-cellular convergence e a SBC Communications - 2ª maior operadora de telefonia fixa dos Estados Unidos - já avisou que em 2006 estará nessa: SBC To Use Wi-Fi To Extend Cingular's Reach do The Feature.

Fazendo um passeio por experiências e devaneios das Cidades sem Fio no mundo temos os exemplos:

Uma das primeiras cidades a considerar esta opção foi Salida no Colorado, mirando logo os Serviços Policiais: Police Use Vivato. Depois vieram muitas outras e o volume de investimentos cada vez aumentando mais. Long Beach e São José, na Califórnia, não ficaram atrás. Veja mais em San Jose Free Cloud.

A cidade de Pune na Índia também se transformou em uma Cidade Wi-Fi (será que é um novo neologismo?): WiFi City.

Hermosa Beach na Califórnia foi bastante aventureira na sua aposta: Hermosa Mayor at SOCALWUG. Ainda na Califórnia, a cidade de Cerritos, que com seus 51.000 habitantes não tem banda larga convencional em ADSL, se vingou apostando no "Cobertor Wireless": Cerritos Goes Live.

A Cidade de Spokane, em Washington, utilizou sua "Nuvem Wireless" para suportar Serviços Comunitários da Cidade e alavancar a economia local: Vivato Unwires Spokane.

Indianápolis que ser uma das dez cidades mais conectadas: Indianapolis Goes for Top Ten Cloud desbancando qualquer uma da lista das "Mais Dez Conectadas" da Intel (ver 2004 Most Unwired Cities).

A pequena Cidade de St. Cloud na Flórida montou a sua rede acesso a internet grátis com a ajuda da HP: Saint Cloud.

A Cidade de Houston montou uma rede de banda larga sem fio com a ajuda da Siemens, Intel e Alvarion com a colaboração de setores de governo, empresas de negócios e instituições de educação: Wireless Houston County.

A cidade de Nova York quer investir US$ 1 bilhão de dólares em uma rede sem fio de alta velocidade para ser utilizada para serviços de polícia, bombeiros e serviços de emergência médica como também para controle de sinais de trânsito e suporte na localização de veículos ($1B Wireless Cloud for NYC).

Los Angeles, a maior cidade da Califórnia, também entrou na festa das redes sem fio (L.A. Plans City-Wide Cloud). A título de exemplo, aqui está a RFP lançada na licitação de Los Angeles. Veja também uma excelente referência sobre o assunto de Redes sem Fio nas Cidades (Muniwireless). São Francisco e Los Angeles continuam dando bons exemplos: SF/LA WiFi Cloud.

A cidade de Filadélfia está investindo os seus US$ 10 milhões nas redes sem fio (Philadelphia Plans $10M City Cloud), caso que provocou uma boa matéria da Revista de Tecnologia do MIT (Who Pays for Wireless Cities?). Veja mais sobre Wi-Fi em Filadélfia no Muniwireless: Philadelphia citywide: Wi-Fi at 50% off e Philadelphia to deploy citywide wireless broadband network.

No USA Today mostrando como as pequenas cidades estão investindo em redes de alta velocidade. Veja aqui: USA Today on Municipal Broadband e Small towns tired of slow rollout create own high-speed networks.

Aqui mais algumas referências genéricas para incrementar sua pesquisa: MuniWireless City-Cloud Report, City Cloud Enablers e More City Clouds.

Na Europa, Paris diz a que veio (Rain In Paris Cloud), enquanto a cidade austríaca de Bregenz alardeia que o título da "Primeira Cidade sem Fio do Mundo" é dela (What Does It Take To Be A Mobile City? do The Feature).

E por que me assustei e disse que quero que o "Mundo Tem que Parar para Eu Descer?". A resposta está em Unwired Countries. Desta vez não são mais as cidades são países inteiros querendo instalar suas redes sem fio. O primeiro caso vem de Taiwan que quer investir US$ 1,1 bilhão no seu Projeto M-Taiwan.

Finalmente, para vocês terem uma idéia da importância que o mundo está dando ao fato Wireless nós tivemos em menos de duas semanas apenas, as seguintes reportagens na grande mídia mundial sobre Tecnologias sem Fio: Wireless Society da Time Magazine e Wireless Life da CNN News endereçando uma matéria específica para as "Nuvens sem Fio" nas cidades em Cities find Wi-Fi future.

Agora faço aqui uma pergunta que não quer calar: o que falta para os governos federal, estadual e municipal seguirem alguns dos bons exemplos acima? Responda você mesmo.

[*] A frase "Pare o Mundo que eu Quero Descer" é do falecido cantor e compositor Raul Seixas, que consta na música "Eu também vou reclamar" de sua autoria.

original: http://idgnow.uol.com.br/AdPortalv5/ColunistaInterna.aspx?GUID=E2F60AA3-AFA8-4013-AE84-223F461530A4&ChannelID=21080130

segunda-feira, janeiro 31, 2005

Apple supera Google como principal marca do mundo

A Apple superou o Google como principal marca do mundo em 2004. A informação é de uma pesquisa realizada pelo site Brandchannel.

O levantamento ouviu 2 mil executivos da área de publicidade. A surpresa ficou por conta da rede de televisão árabe Al-Jazira, que entrou na lista das cinco principais marcas do mundo.

A Apple, cujo aparelho de música digital substituiu o Walkman da Sony como dispositivo portátil de áudio, ficou no topo da lista global e da América do Norte. A companhia que lançou o iPod há três anos, vendeu 10 milhões de unidades do aparelho.

"A Apple fez um trabalho extraordinário em inovação, tecnologia e design. O iPod é o que colocou a Apple na liderança", disse, o editor da Brandchannel, Robin Rusch. Na lista das cinco principais marcas do mundo aparecem pela ordem: Apple, Google, a fabricante de móveis sueca Ikea, a rede de cafeterias Starbucks e a Al-Jazira.

orginal: http://informatica.terra.com.br/interna/0,,OI463923-EI553,00.html

sexta-feira, janeiro 28, 2005

E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades
que vos foram dadas no Grau de Neófito, e
aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor,
são, ainda que opostas, a mesma verdade.

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Jobs x Gates

"Se Jobs é um inovador com senso de estilo, Gates é um disseminador com senso de oportunidade."

ESTADO S.PAULO - 17/01/2005

EPIC 2014

http://www.robinsloan.com/epic

In the year 2014, The New York Times has gone offline. The Fourth
Estate's fortunes have waned. What happened to the news ? And what is
EPIC ?


"Simplismente Incrivel!!!"

terça-feira, janeiro 18, 2005

Mulheres são menos aptas para ciências, diz presidente de Harvard

O presidente da Universidade de Harvard causou polêmica entre acadêmicos ao sugerir que as mulheres têm menos capacidade em ciência e em matemática do que os homens.

O ex-secretário do Tesouro americano Lawrence Summers disse que um sexo supera o outro devido a características genéticas, e não somente por experiência, segundo informações do jornal Boston Herald.

Vários convidados deixaram o local da conferência de que Summers participava depois de ouvir os comentários.

Summers disse depois que a falta de acadêmicas mulheres se devia também aos deveres maternos, o que dificultaria o trabalho de 80 horas por semana necessário para pesquisas.

Provocação

Summers disse que a teoria de que os homens são naturalmente mais capazes que as mulheres em ciências é baseada em uma pesquisa, e não em sua opinião pessoal.

Meninos tiram melhores notas que meninas, e, segundo ele, essa diferença deveria ser investigada.

Richard Freeman, organizador da conferência que aconteceu no Escritório Nacional de Pesquisa Econômica em Cambridge, Massachusetts, disse que Summers tinha recebido instruções para ser provocativo.

Mas Nancy Hopkins, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, disse que, se não tivesse deixado o local antes do final da conferência, "teria desmaiado ou vomitado".

"Minhas considerações foram mal interpretadas sugerindo que eu disse que falta habilidade para as mulheres conseguirem alcançar sucesso níveis altos da matemática e da ciência. Eu não disse isso, e nem acredito nisso", disse Summers.

"Eu tenho um compromisso ao progresso das mulheres nas ciências, e todos nós temos um papel crucial em acelerar esse progresso até o final."

Ele adicionou que "quanto mais trabalharmos para pesquisar e entender a situação, são melhores as oportunidades para um sucesso de longo prazo".

Summers é presidente de Harvard desde 2001, tendo feito parte anteriormente do governo do ex-presidente americano Bill Clinton.

original: http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u38850.shtml

terça-feira, janeiro 11, 2005

Mais milho aos porcos

original: http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=3196

falei da desmoralização do título de Doutor que, entre nós, se deve à universidade brasileira, ao distribuir doutorados a torto e a direito, como quem joga milho aos porcos. Não faltou quem protestasse. Que quem jogava milho aos porcos era a universidade francesa, com seus diversos doutorados, o Dr. Ingénieur, o Doctorat d'Université, o Doctorat de IIIe Cycle e o famigerado Doctorat d'État.

Pode ser. De qualquer forma, o título pelo menos corresponde a um esforço acadêmico e não é atribuído a qualquer rábula só porque é juiz ou fez curso de Direito.

O missivista considera que o único doutorado francês válido seria o Doctorat d'État. "Um doutorado na França é conhecido por doctorat d'Estat (sic!) e esse sim é equivalente ao doutorado no Brasil. Lá existem vários tipos de doutorado, a maioria pode ser realizada em no máximo dois anos, à exceção do doctorat d'Estat (resic!), cuja duração é equivalente aos dos outros países - uns cinco anos. Quase todos os nossos intelectuais de esquerda fizeram um curso Troisiéme Cycle na França e se dizem doutores".

O ilustre especialista em doutorados - que escreve sob pseudônimo - sequer sabe redigir corretamente a designação do título. Também ignora que o Doctorat de IIIe Cycle se faz em quatro - eventualmente cinco - anos e que o famigerado doctorat d'Estat, como ele grafa , era feito em dez ou mais anos. O Doctorat de IIIe Cycle sempre foi reconhecido como doutorado em todos os países europeus. O d'État era tido como mais uma bizarrice dos galos. Distorção da universidade francesa, servia como placebo ao desemprego, ao mesmo tempo que mantinha o doutorando afastado por uma boa década do mercado de trabalho. O candidato ao título desenvolvia teses monumentais, às vezes de quatro ou cinco volumes, que nem mesmo a banca julgadora lia na totalidade. Tais calhamaços ficavam entregues às traças e à poeira nas bibliotecas e a universidade francesa sequer percebia que delas poderia tirar algum lucro. Exportando para a Holanda, por exemplo, para fazer diques.

Com a arrogância que sempre lhe foi intrínseca - e para proteger a guilda de seus doutores - a USP só reconhecia como doutorado francês esta enfermidade gálica. O governo Mitterrand tomou consciência desta perversão acadêmica e a extinguiu. Agora existe apenas Doctorat. Pergunta aos PhDeuses uspianos: qual parâmetro tem hoje a USP para reconhecer um doutorado feito na França? Ou não reconhecerá mais nenhum outro doutorado francês?

USP à parte, todas as demais universidades brasileiras tinham autonomia para reconhecer como doutorado o curso que bem entendessem. A propósito, em meus dias de universidade, falava-se à boca pequena de um certo "doutorado de nordestino". Eram cursos curtos de pós-graduação, feitos muitas vezes na Espanha, que universidades nordestinas não hesitavam em reconhecer como doutorado. Quando meu missivista me fala em "doctorat d'Estat", me pergunto se não será doutor por alguma universidade nordestina.

Por outro lado, doutorado na França ou no nordeste muitas vezes se equivalem. Fui testemunha do caso de um professor gaúcho de sociologia que defendeu tese numa universidade parisiense e não sabia sequer traduzir a menção que lhe foi dada. Recebeu Assez bien e veio comunicar-me a menção, muito orgulhoso, julgando que era algo superior a Très bien. Ora, Assez bien é a mais baixa das menções, que a banca confere ao doutorando por comiseração. O Dr. em questão, que sequer conhecia um francês elementar, como era de esquerda, teve seu título reconhecido pela UFRGS.

Um outro leitor me adverte que não citei o caso de doutorandos já de idade provecta, que obtém o título e imediatamente se aposentam. Citei sim, mas em crônica antiga, quando falava de outra distorção nossa, a dos mestrandos carecas. "Entre as muitas anomalias da universidade brasileira - escrevi então - estão os mestrandos quarentões. Aquela iniciação à pesquisa, pela qual o candidato deveria optar tão logo terminasse o curso superior, é adiada para uma idade em que do acadêmico já se espera obra consolidada. Pior mesmo, só os doutorados de terceira idade. Marmanjos de cinqüenta e mais anos, em idade de aposentar-se, postulando um título que só vai servir para pendurar junto com as chuteiras. (...) Mestrado não é para carecas. Já um doutorando, este deveria defender sua tese no máximo aos trinta e poucos, para que sua experiência em pesquisa possa ser útil ao ensino e à sociedade. Que mais não seja, é patético ver um homem já maduro humilhando-se, ao tentar iniciar-se em metodologias que devia desde jovem dominar. Na universidade brasileira, o doutorado nem sempre é visto como início de uma carreira, mas como louro a coroar a calva do acadêmico quando este está prestes a usar pijamas. Quem paga tais vaidades senis? Como sempre, o contribuinte".

Em meio a isso, leio manchete na Folha de São Paulo da semana passada:

Plano prevê dobrar nº de doutores no país

Diz a linha fina:

Documento da Capes prevê investir R$ 3,26 bilhões em seis anos para passar de 8.000
para 16 mil titulados ao ano.


Em suma, o Plano Nacional de Pós-Graduação apresentado pela Capes ao ministro da Educação, Tarso Genro, propõe a aplicação nos próximos seis anos de R$ 1,66 bilhão a mais em bolsas e fomento de pós-graduação, o que permitiria passar dos atuais 8.000 doutores titulados por ano para 16 mil em 2010. O plano "será acolhido integralmente", disse Genro.

Isto é, não bastassem os jornalistas e engenheiros formados que trabalham de taxistas ou fiscais do trânsito, daqui a uns cinco anos teremos doutores conduzindo táxis ou aplicando multas nas ruas. Mais milho para os porcos. Sempre às custas do contribuinte. O que me lembra um pouco Fidel Ruz Castro - aliás Dr. Honoris Causa pela Universidade Federal de Santa Catarina - respondendo às acusações de que em Cuba até as universitárias tinham de prostituir-se:

- Nada disso. Ocorre que em Cuba até as prostitutas têm grau universitário.

Doutores

original: http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=3093


Um leitor me pergunta o que penso, antes que suma da memória das gentes, sobre mais um desses casos que só ocorre no Brasil. O assunto é antigo, mas vamos lá. Em Niterói, a 15 km do Rio de Janeiro, o juiz Antônio Marreiros da Silva Melo Neto moveu ação de danos morais contra um condomínio e obteve liminar para ser tratado por “senhor” ou “doutor”. A sumidade exige também indenização por danos morais.

Um dia, fiz o curso de Direito. Cinco anos perdidos de minha vida. Não que julgue o ofício inútil, nada disso. Mas já no segundo ano eu sabia que jamais advogaria. Os rituais do ofício, o terno e gravata, isso sem falar na toga, o linguajar arrevesado dos processos, que mais parece gíria de mafiosos para não serem entendidos pela clientela, mais o anel no dedo, tudo isso me afastava da profissão. Uma vez diplomado, para sobreviver, fui vender enciclopédias e contar sabonetes e shampoos em farmácias e supermercados, para a Sidney Ross. Me sentia melhor do que chamando rábulas de Dr. e juízes de Meritíssimo. Um tio me presenteou com anel de rubi. Foi muito útil para botar no prego da Caixa Econômica, nos dias de maiores apertos.

Mais tarde fiz um doutorado na Sorbonne. Não por exigência universitária ou profissional, mas por diletantismo. Queria viajar, conhecer Paris, a França, a Europa, ilhas gregas e canárias, e não tinha grana sequer pra curtir Montevidéu. Como viajar sem grana? É simples. Pede-se uma bolsa. Qualquer professor universitário sabe disso. Sem ser professor universitário, pedi, levei e fui. Não tinha a mínima idéia do que fosse um doutorado, uma tese ou mesmo literatura comparada. Me enfurnei nas bibliotecas, percorri sebos e livrarias, catei teses e ensaios de literatura comparada. Na época, já trabalhava com jornalismo, e para um jornalista não é um desafio maior elaborar uma tese na área literária.

Defendi minha tese, em circunstâncias um pouco insólitas. Na hora da defesa, havia algo entre 50 e 60 mulheres – e um só varão. Este dado é importante, pois suponho que foram elas que me salvaram. Minha tese era um insulto aos acadêmicos, pois eu não citava teórico algum. Quelle est votre méthode? – perguntou-me uma doutora argelina que participava da banca. Ma méthode – respondi serenamente – c’est la cristaldesque. Não vim a Paris para pensar com a cabeça de terceiros. Naquele instante, senti que eu mesmo havia decretado minha decapitação. A banca levou meia hora para tomar uma decisão, o que é um tanto exagerado, já que toda defesa de tese é puro teatro e nada mais que teatro.

Voltaram do conciliábulo e a menção me surpreendeu: Très Bien. Pareceu-me que a banca não ousou decepcionar aquele auditório florido, et me voilà Docteur es Lettres. Às amigas que me honraram com suas presenças, minha eterna gratidão.

Eu estava tão por fora do mundo acadêmico, que sequer sabia que um doutorado me habilitava a lecionar. Eu fora a Paris curtir seus queijos e vinhos, mulheres e arquitetura, jornais e literatura. Meu diploma, sequer o apanhei. Quando fui buscá-lo na secretaria da Sorbonne, as funcionárias ficaram pasmas. Mais non, Monsieur, c’est pas comme ça. Eu deveria preencher um formulário, enviá-lo pelo correio e esperar o diploma em casa. Ora, eu estava partindo de Paris, havia largado meu apartamento e ainda não tinha endereço fixo no Brasil. Tal despropósito me irritou tanto, que até hoje não peguei meu diploma. Tenho apenas um certificado de que ele existe, em algum arquivo morto, au bord’elle, la Seine.

Eu, Doutor pela Université de la Sorbonne Nouvelle – Paris III (não confundir com a Sorbonne, que não existe a partir de 1968), posso afirmar serenamente: doutorado é uma bobagem que qualquer pessoa medianamente dotada é capaz de cumprir. Tese pode ser uma besteira qualquer. Se aprovada por uma banca legalmente constituída, dá direito ao título, por absurda que seja. E não foram poucas as defesas de teses absurdas que assisti em Paris.

O fato me leva a um incidente um tanto insólito de minha vida. Por circunstâncias que ora não vêm ao caso, fui levado certo dia ao que se chama de barras dos tribunais. Minha advogada já foi me alertando: ao dirigir-me ao juiz, não cometesse a gafe de chamá-lo de Dr. No tribunal, o juiz se ofende se for chamado de Dr. Só aceita Meritíssimo. Bom, compareci ante o dito cujo. Em Roma, como os romanos. E os meritíssimos e doutores se cruzavam pelos ares a todo instante no tribunal, como se eu estivesse em outro universo que não o do comum dos mortais. E eu – que era o único a ter doutorado naquela sala – recebi o tratamento nada nobilitante de “indigitado réu”.

Enfim, o Merítissimo foi uma mãe para mim, tudo acabou bem e, como dizem os franceses, c’est bien tout ce que finit bien. Mas a situação constituía uma profunda ironia. Não me concederam sequer um doutorzinho, nem mesmo em função de meu curso de Direito. Muito menos pelo doutorado que defendi em Letras Francesas e Comparadas, na Université de la Sorbonne Nouvelle. Eu era apenas o indigitado réu.

Dadas as exigências de carreira no Brasil, estão sendo formados doutores às pencas, a tal ponto que as bibliotecas já não têm espaço para abrigar tantas teses. Pessoalmente, tenho uma sugestão. Poderiam ser exportadas para a Holanda, para fazer diques, e assim teriam algum sentido. O título de Dr – falo do doutorado defendido após quatro ou cinco (supostos) anos de pesquisa, vulgarizou-se a tal ponto que já não distingue mais um pesquisador sério de um escroque qualquer. Sem falar que diversos sites já oferecem, a preços módicos, dissertações de mestrado ou teses prontinhas a quem se dispuser a comprá-las. Aliás, Umberto Eco, em seu livro Como fazer uma tese, cinicamente já escrevia: doutorado é um título que dá direito a um patamar mais alto de salários. Se você não conseguir elaborar a sua, plagie.

Que um médico ou dentista sejam chamados de doutor, entende-se. É antiga tradição, inerente ao ofício. Mas quando um rábula entra com ação para ser chamado de doutor – fora dos tribunais, quando nem lá mesmo se justificaria o título – estamos ante a desmoralização cabal da profissão. Um juiz já não vale pelo que vale, mas pelo Dr com o qual exige que lhe tratem. Este senhor é um pobre diabo, que sequer consegue impor-se a um porteiro por sua personalidade, e exige ser tratado com a reverência que lhe conferem os cúmplices de sua guilda privada.

A piada é antiga e nada refinada. Mas se adapta ao caso. Um advogado, ao pagar o engraxate que lhe lustrava os sapatos, ouviu do menino:

“Obrigado, doutor”.

- Meu filho, como você sabe que sou doutor?
- Ora, meu senhor, neste país qualquer pé-rapado é doutor.

A desmoralização do título se deve, entre nós, à universidade brasileira, que distribui doutorados a torto e a direito, como quem joga milho aos porcos. Mais um pouco, e ser chamado de Dr será pejorativo. Se já não é.

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Sobre Gênios e Loucos

Munch, Van Gogh, Picasso - De muitos artistas sempre se disse que não batiam lá muito bem da cabeça. Pois agora aumentam as evidências científicas de que criatividade e doença mental andam de fato muito próximas

Muitas pessoas já me caracterizaram como louco", escreveu certa vez Edgar Allan Poe (1809-1849). "Resta saber se a loucura não representa, talvez, a forma mais elevada de inteligência." Nessa sua suspeita de que genialidade e loucura talvez estejam intimamente entrelaçadas, o escritor americano não estava sozinho. Muito antes, Platão mostrara acreditar em uma espécie de "loucura divina" como base fundamental de toda criatividade.

Uma lista interminável de artistas célebres, parte deles portadores de graves transtornos psíquicos, parece confirmar o ponto de vista do filósofo grego. Vincent van Gogh, Paul Gauguin, Lord Byron, Liev Tolstói, Serguei Rachmaninov, Piotr Ilitch Tchaikóvski, Robert Schumann - o célebre poder criativo de todos eles caminhava lado a lado com uma instabilidade psíquica claramente dotada de traços patológicos. Variações extremas de humor, manias, fixações, dependência de álcool ou drogas ainda hoje atormentam a vida de muitas mentes criativas.

SERÁ MERA COINCIDÊNCIA?


No início do século XX, a busca pelas raízes da genialidade era um dos temas mais palpitantes da investigação psicológica. Cientistas de ponta tinham poucas dúvidas de que certos males psíquicos davam asas à imaginação. "Quando um intelecto superior se une a um temperamento psicopático, criam-se as melhores condições para o surgimento daquele tipo de genialidade efetiva que entra para os livros de história", sentenciava o filósofo e psicólogo americano William James (1842-1910). Pessoas assim perseguiriam obsessivamente suas idéias e seus pensamentos - para seu próprio bem ou mal -, e isso as distinguiria de todas as outras.

Sigmund Freud também se interessou pelo assunto. Convicto de que encontraria "algumas verdades psicológicas universais", analisou vida e obra de artistas e escritores famosos, buscando pistas de transtornos mentais. Mas foi somente a partir dos anos 70 que Nancy Andreasen, psiquiatra da Universidade de Iowa, começou a investigar de forma sistemática a suposta ligação entre genialidade e loucura. Participaram de sua experiência 30 escritores cujo talento criativo havia sido posto à prova na renomada oficina de autores da universidade.

Andreasen examinou essas personalidades à procura de distúrbios psíquicos e comparou os dados obtidos aos daqueles grupos de um grupo de controle: 80% dos escritores relataram perturbações regulares do humor, ante 30% no grupo de controle. Quarenta e três por cento dos artistas satisfaziam os critérios para o diagnóstico de uma ou outra forma de patologia maníaco-depressiva, o que, no grupo de controle, só se verificou em uma a cada dez pessoas. Durante o estudo, dois escritores cometeram suicídio - dado que, segundo Andreasen, não seria estatisticamente significativo. A psiquiatra comprovou pela primeira vez e com métodos científicos que, por trás da suposta conexão entre criatividade elevada e psique enferma, haveria algo mais que o mero e surrado lugar-comum.

Em 1983, Kay Redfield Jamison conduziu um estudo em que obteve resultados claros e semelhantes. Psicóloga da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, ela contatou 47 pintores e poetas britânicos renomados. Seguindo os critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), examinou a presença de transtornos de humor caracterizados por fases depressivas.

Segundo o Manual, esses transtornos são marcados por estados depressivos que duram de duas a quatro semanas e prejudicam sensivelmente o cotidiano dos pacientes, que não conseguem animar-se para nada, sofrem perturbações da concentração e do sono e têm pensamentos negativos beirando o desespero total. A presença desses sintomas aponta para o chamado transtorno depressivo maior. Mas, além desse, há também os transtornos bipolares, nos quais fases depressivas são alternadas com picos de euforia - os episódios maníacos. Nesse caso, os pacientes quase não dormem, estão sempre ocupados com alguma coisa, seus pensamentos saltam de um tema a outro e eles atribuem a suas idéias - e, em geral, também a si próprios - grandeza absoluta.

Tais males psíquicos, caracterizados como depressões maníacas, estão entre os transtornos de humor pelos quais Jamison procurava em seu estudo. Ela constatou que quase 40% dos artistas examinados haviam requerido ajuda médica alguma vez na vida - taxa 30 vezes mais alta que a verificada entre a média da população. A corporação dos escritores revelou ser a que sofria dos problemas psíquicos mais severos. Um a cada dois poetas já havia recorrido a tratamento psiquiátrico em virtude de depressão ou episódios maníacos.

Na década de 80, Hagop Aksikal entrevistou outros 20 artistas europeus, tendo por base os critérios do DSM. Dois terços deles sofriam de episódios depressivos recorrentes, muitas vezes combinados com os chamados estados hipomaníacos - forma menos pronunciada da mania. Como constatou esse psicólogo da Universidade da Califórnia, em San Diego, metade dos artistas tinha enfrentado depressão em algum momento da vida. Tendência semelhante, aliás, Aksikal já havia observado entre músicos de blues nos Estados Unidos.

Com base nessas pesquisas, Jamison concluiu que o grande número de artistas com diagnóstico de depressão ou de transtornos bipolares já não podia ser atribuído ao acaso. A pesquisadora admitia deficiências metodológicas também em seu próprio estudo - por exemplo, o número demasiadamente reduzido da amostra -, mas a conexão entre instabilidade psíquica e potencial criativo era evidente.

Ruth L. Richards e colegas da Harvard Medical School, em Boston, tentaram abordar a questão de outro ponto de vista. Em vez de saírem em busca de males psíquicos em artistas reconhecidos, inverteram a pergunta: portadores de enfermidades psíquicas seriam particularmente criativos? Eles examinaram a criatividade de 17 pacientes com depressão maníaca manifesta e de 16 ciclotímicos - a forma mais amena do transtorno bipolar -, com base na chamada Lifetime -Creativity Scale.

Nessa escala de criatividade influenciam não apenas os testes relacionados ao pensamento inovador e original, mas também o desempenho criativo nas esferas pessoal e profissional. Os pacientes saíram-se melhor que o grupo de pessoas utilizado para comparação, composto de indivíduos sem qualquer histórico psiquiátrico.

O tipo de transtorno desempenhou aí papel bastante decisivo. Os participantes ciclotímicos revelaram-se muito mais criativos. Além disso, ficaram atrás de seus familiares sem distúrbios psíquicos evidentes, também avaliados. A hipótese aventada pelos pesquisadores foi, portanto, a de que os parentes dos pacientes talvez tendessem à instabilidade psíquica, cuja manifestação neles se daria de forma tão amena que não lhes causaria problemas. "É possível que pessoas com tendência reduzida, talvez até imperceptível, à instabilidade bipolar sejam mais criativas", concluíram os pesquisadores.

Nesse meio tempo, o pensamento aguçado, de criatividade incomum, e a produtividade elevada passaram até mesmo a serem considerados indícios no diagnóstico de fases maníacas. Mas como uma enfermidade tão perturbadora e destrutiva pode incrementar nosso poder criativo? Afinal, normalmente reina o caos entre os maníaco-depressivos, tanto no aspecto profissional quanto no pessoal. Em meio a episódios maníacos, endividam-se, mergulham em relacionamentos duvidosos e aventuras sexuais sem medir as conseqüências. Agressões e até mesmo alucinações integram o quadro. Então, a esse apogeu temporário segue-se sempre o mergulho em depressão profunda.

O psicólogo americano Joy Paul Guilford (1897-1987) definiu criatividade como a capacidade de, diante de um problema, "encontrar respostas incomuns, de associação longínqua". Para chegar a uma idéia original, abandonam caminhos já trilhados e pensam de modo diferente. O intelecto, então, não se aferra à busca de uma única solução correta, mas move-se em diversas direções. Quanto mais fluentes e livres jorrarem os pensamentos, melhor.

São precisamente esses talentos que os portadores de transtornos bipolares exibem em abundância na fase maníaca. Seu cérebro trabalha à toda, despejando idéias nada convencionais. Essa imensa produção está longe de resultar apenas em coisas sensatas, mas pouco importa: a massa de idéias que brota da mente maníaca eleva a probabilidade de que haja entre elas alguns lampejos mentais "genuínos".

O psicólogo Eugen Bleuler, contemporâneo de Freud, via aí o elo procurado entre genialidade e doença mental. "Mesmo que apenas os casos amenos produzam algo de valor, o fato de neles as idéias fluírem com mais rapidez e, sobretudo, de as inibições desaparecerem estimula as capacidades artísticas."

Também para Jamison, o segredo está no pensamento rápido e flexível, bem como no dom de unir coisas que, à primeira vista, não possuem qualquer conexão entre si. O que Bleuler, no passado, só podia supor hoje é confirmado por estudos científicos. Assim, pacientes de hipomania mostram superioridade em testes de associação de palavras: num espaço de tempo delimitado e com uma palavra dada, são capazes de associar quantidade bem maior de conceitos que pessoas em perfeitas condições psíquicas. Dão menos respostas estatisticamente "normais" que as do grupo de controle, mas encontram soluções heterodoxas em número três vezes maior.

Hipomaníacos chamam a atenção também por seu modo de falar. Tendem a fazer uso de rimas e empregam com freqüência associações sonoras, tais como as aliterações. Além disso, seu vocabulário compreende em média três vezes mais neologismos que o de uma pessoa saudável. E mais: nos pacientes em fase maníaca, a rapidez do processo de pensamento traduz-se numa elevação do quociente de inteligência.

Maníaco-depressivos exibem também certas qualidades não cognitivas muito úteis aos artistas. Robert DeLong, psicólogo da Harvard Medical School, pediu a um grupo de crianças, todas com sinais precoces de transtorno bipolar, que fizesse desenhos sobre um tema.
Na comparação com o grupo de controle, não apenas seu nítido e transbordante poder de imaginação chamou atenção. DeLong ficou ainda mais impressionado com a extraordinária capacidade de concentração dessas crianças, que se dedicaram durante horas à tarefa, sem se deixar distrair por coisa alguma. Como resultado, seu brilhantismo revelou-se tanto no desempenho espantoso da memória quanto nos desenhos detalhados.

Energia fabulosa e concentração total caracterizam também as fases criadoras de muitos pintores, escultores, escritores e poetas. Muitos deles varam noites escrevendo ou passam horas sem fim no ateliê, sem dormir.

LIMIAR DA LOUCURA

Nancy Andreasen acrescenta outra explicação: "o sistema nervoso, afinadíssimo", simplesmente perceberia mais informações sensoriais, transformando-as em idéias criativas. Embora sem comprovação definitiva, a psicóloga supõe que a causa seja "um defeito nos processos cognitivos que filtram esses estímulos".

No final de 2003, Shelley Carson, da Universidade de Harvard, e Jordan Peterson, da Universidade de Toronto, descobriram que Andreasen estava certa. Eles recrutaram 25 estudantes que haviam se destacado por seu desempenho criativo extraordinário e, com auxílio de um teste, puderam determinar a chamada inibição latente em cada um deles - mecanismo cognitivo que exclui do fluxo contínuo de dados sensoriais aqueles que a experiência já demonstrou serem de pouca valia. Nos colegas não criativos, esse processo de filtragem inconsciente se revelou nitidamente mais pronunciado.

Em decorrência da menor inibição latente, pessoas criativas acolhem mais impressões de seu entorno. Mas há também o outro lado dessa moeda. "Quando uma pessoa tem 50 idéias diferentes, o provável é que só duas ou três sejam boas de fato", explica Peterson. "É necessário saber diferenciar essas idéias para não submergir em meio a tantas delas. Daí a importância da inteligência e da memória operacional para evitar que as mentes criativas se afoguem numa torrente de informações", conclui.

Será que os pacientes de transtorno bipolar ultrapassam o limiar da loucura por quase sufocar sob a massa enorme de idéias e pensamentos? Para Carson e Peterson, isso é precisamente o que sua experiência deixa claro: "Um grau reduzido de inibição latente associado a uma extraordinária flexibilidade de pensamento pode, sob certas circunstâncias, predispor o indivíduo às doenças mentais ou, sob outras circunstâncias, a façanhas criativas".

Nessa questão, Jamison - que também sofre de depressões maníacas - defende uma tese interessante. Ela acredita que o mergulho recorrente na depressão evita que portadores de transtorno bipolar se percam em pensamentos e idéias obscuras. Indivíduos depressivos - atormentados por dúvidas, insegurança e hesitação - teriam um juízo mais realista das coisas. Seu "mecanismo interno de edição", como Jamison o denomina, operaria com a correspondente sensibilidade, ou seja, verificaria a utilidade das idéias produzidas pela mente hiperativa e excluiria as cores berrantes do excesso. Sendo assim, todas as idéias que, na fase maníaca, se revelam grandiosas, seriam submetidas ao crivo de um extremo rigor crítico.

Já o pioneiro Guilford via o segredo- do pensamento criativo na capacidade de estabelecer um vínculo entre o racional e o irracional, o conhecido e o desconhecido, o convencional e o não convencional. Se, porém, a criatividade brota dessas oposições, espíritos criativos arriscam-se continuamente a ir longe demais com suas idéias e seus pensamentos, ultrapassando as fronteiras do inteligível.

ARTE COMO TERAPIA

Uma rápida visita aos livros de história nos mostra como é tênue a linha que separa a genialidade da loucura. Seja a visão heliocêntrica do mundo de Copérnico ou a teoria da evolução de Darwin, muitos lampejos geniais foram a princípio recriminados como produto de um cérebro doentio. Hoje, porém, ninguém mais duvida da saúde psíquica de tais personalidades.

Mas não são poucos os psicólogos que sustentam que portadores de doenças psíquicas com freqüência trabalham em áreas criativas apenas porque a atividade artística os ajuda a proteger a própria mente da destruição. "A literatura me pegou pela mão e me salvou da loucura", ponderava a poeta americana Anne Sexton (1928-1974), que, em virtude de uma grave psicose, vivia sendo internada em clínicas psiquiátricas.

Criatividade como saída para a crise? Residiria aí o famigerado vínculo entre poder de criação e sofrimento psíquico? O fato de tantos pacientes psiquiátricos se beneficiarem de terapias envolvendo a pintura, a dança ou a música parece confirmar essa hipótese. Contudo, dois fatos não devem ser esquecidos: a maioria dos doentes não demonstra possuir fantasia extraordinária nem criatividade especial; tampouco a maioria dos escritores, poetas, músicos, designers, escultores ou pintores reconhecidos revela-se portadora de algum distúrbio mental.

A imagem excessivamente utilizada e romantizada do gênio maluco desacredita em certa medida o trabalho, o caráter e o estado mental dos que lidam com arte. E o fato de muitos artistas com enfermidades psíquicas terem recusado tratamento, no passado, talvez tenha contribuído para essa visão distorcida. O pintor norueguês Edvard Munch (1862-1944), por exemplo, que era maníaco-depressivo, temia que uma terapia pudesse extinguir seu poder criativo. "Prefiro continuar sofrendo desses males, porque são parte de mim e de minha arte", declarou. Sem ajuda médica, porém, corre-se o risco de que depressões e transtornos bipolares se acentuem com o tempo. Munch teve sorte: estava relativamente bem nos últimos anos de vida. Uma declaração da escritora americana Sylvia Plath nos diz um pouco sobre o sofrimento de artistas vítimas de distúrbios psíquicos: "Quando se tem uma doença mental, ser um doente mental é tudo que se faz, o tempo todo [...] Quando eu era louca, isso era tudo que eu era". Em casa, na manhã de 11 de fevereiro de 1963, essa poeta de extremo talento, vítima de depressão grave, abriu a torneira do gás. Tinha 30 anos.



Vincent van Gogh - histórico de uma doença

Concluída a escola, o jovem Vincent van Gogh vai trabalhar na compra e venda de objetos de arte, primeiro em Haia, depois em Londres. A infelicidade no amor o lança na primeira depressão grave. Seus pensamentos voltam-se para a religião. Passa quatro anos na Bélgica trabalhando como pastor. Ali, ajuda no que pode e luta pelos direitos das pessoas. Contudo, isso desagrada a Igreja, da qual é expulso, fazendo-o mergulhar em nova crise. "Minha única angústia é descobrir como posso ser útil ao mundo", escreve ao irmão Theo, seu mais íntimo confidente.

Somente aos 27 anos, Vincent decide ser pintor. Lança-se ao trabalho com enorme intensidade. Em 1886, vai viver com Theo em Paris, onde sua saúde piora. Começa a sofrer de cãibras na mão esquerda. Passados os acessos, fica perturbado e a memória falha por breves períodos - primeiro indício da epilepsia diagnosticada mais tarde. O gosto do pintor pelo absinto contribui para o agravamento de seu estado. Sabe-se hoje que a bebida contém uma substância que favorece ataques epilépticos e psicoses. Seu temperamento explosivo e as oscilações de humor o tornam persona non grata para vários de seus conhecidos. "É como se fossem duas pessoas: uma delas, de grande talento, culta e sensível; a outra, egoísta e fria de sentimentos", descreve Theo.

No início de 1888, Vincent vai para o Sul da França, "cansado e desesperado", como ele próprio diz. Ali, sintomas de um grave transtorno psíquico manifestam-se com crescente nitidez. Períodos de atividade febril alternam-se com apatia e esgotamento total - sinais típicos de depressão maníaca. Sentindo-se só, pede ao amigo Paul Gauguin que se junte a ele. Juntos, os dois pintores fundam o "Estúdio do Sul". Mas este relacionamento deteriora, culminando numa catástrofe: em dezembro de 1888, van Gogh o ameaça com uma navalha e termina por amputar a própria orelha.

No hospital, o primeiro diagnóstico: psicose grave. O médico Felix Rey também suspeita de epilepsia larvada, em que os acessos convulsivos têm forma bastante amena. Em compensação, imperam outras ocorrências psíquicas e o paciente oscila entre euforia extrema e depressão profunda, acompanhadas de angústia e insônia. Alucinações e mania de perseguição integram o quadro dos sintomas, bem como pronunciada emotividade, que, com freqüência, culmina em solicitude exagerada ou religiosidade extrema.

A epilepsia de lobo temporal é tida como a explicação mais provável para o perturbado estado mental de van Gogh. Rey o trata com brometo de potássio. Passados alguns dias, o artista se recupera. Embora o médico chame sua atenção para os perigos do absinto, o pintor o ignora. Essa é uma das razões para as várias recaídas, que requerem repetidas internações. Seu estado psíquico é tão instável que, em maio de 1889, interna-se espontaneamente no sanatório de Saint Rémy.

O médico da instituição confirma a epilepsia, mas suspende o tratamento com brometo de potássio. Apesar dos episódios de uma grave psicose, van Gogh produz no ano seguinte mais de 300 obras. Depois, muda-se para Auvers-sur-Oise, nas proximidades de Paris. Nos campos ao redor de Auvers, pinta algumas de suas grandiosas paisagens. Em carta a Theo, menciona que gostaria de aumentar sua paleta de cores e pede apoio ao irmão. Três dias depois, o grande artista se mata com um tiro no peito.